O existencial e o político no jornalismo cultural

Penso que um outro conjunto de elementos faz parte de muitas das matérias publicadas nos suplementos e cadernos de cultura. Nas duas últimas postagens sobre o tema fiz uma rápida referência a eles quando afirmei que, além dos componentes de natureza mercadológica e daqueles de perfil estético-conceitual, também os contextos de natureza ético-política aparecem na produção do gênero. Trata-se, neste caso, das referências de contexto existencial e histórico que as pautas do jornalismo cultural cobram do profissional da imprensa, invariavelmente ligadas às dimensões de natureza reflexiva que a produção artística ou acadêmica sempre apresenta.

Exemplifico com a observação empírica que tenho feito sobre os suplementos de cultura dos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, que são os órgãos com os quais tenho trabalhado no projeto de pesquisa que desenvolvo na Umesp. Pois bem: com exceção daquelas matérias de menor dimensão interpretativa e quase sempre voltadas para a “prestação de serviços” (notas, breves comentários, apontamentos de natureza essencialmente informativa), as demais costumeiramente apontam para o conjunto de possibilidades oferecidas pelas “aberturas” analíticas presentes com maior ou menor intensidade na produção cultural. É bastante comum nesses casos – diria mesmo que é inevitável – que o jornalista se debruce sobre o universo de problemas de perfil existencial ou político que as obras que comenta têm em maior ou menor grau, remetendo o leitor para um contexto ampliado da simples referência objetiva ao tema da matéria.

Nesse sentido, um lançamento literário ou uma apresentação dramatúrgica, a estreia de uma produção cinematográfica, uma obra de estrutura acadêmica, operam com duas dimensões igualmente fortes na composição dos textos que tenho analisado: a primeira elas, que chamo aqui de existencial, remete a questões relativas à ontologia do contemporâneo e à diversidade de apelos à sua compreensão ética, entendida aqui como uma esfera de comportamentos que, embora possam se refletir no cotidiano (e identificada nele), apontam para dilemas do ser, da sua subjetividade, da sua inserção no universo dos sentimentos e das relações com o mundo. A segunda, que chamo de política (obviamente referida aqui em sua compreensão transformadora e organizadora), diz respeito à estrutura social, às relações de dominação e ao poder.

Minhas observações sobre o jornalismo cultural, ainda que reconheçam no gênero – como já foi dito – determinações informativas e de puro entretenimento (onde se concretiza a interface com o mercado da cultura), evidenciam processos de produção voltados para essas outras duas lógicas dos bens simbólicos: a dimensão estético-conceitual e a dimensão existencial e política. Acredito que essas conclusões culminam, pelo menos até aqui, a interpretação dos produtos que tenho estudado. A tarefa agora é sistematizá-las, mas é preciso mais que um blog para isso.

Debate contesta revisão da estrutura dos cursos de Comunicação e das diretrizes de Jornalismo

A redefinição dos cursos de Comunicação a partir do desmembramento das atuais habilitações e a proposta de novas diretrizes curriculares para Jornalismo apresentada recentemente ao MEC pela Comissão de Especialistas acendeu o debate na Compós. A partir de uma mensagem postada na lista por Ivana Bentes, na qual a professora da ECO/UFRJ adverte para a possibilidade de que as mudanças previstas contrariem a concepção transdisciplinar do ensino de graduação com a segmentação das formações profissionais, duas manifestações posteriores indicam que muita água vai rolar até que o Conselho Nacional de Educação delibere sobre o assunto. A primeira veio de Afonso Albuquerque; a segunda, de Erik Felinto.

Para Albuquerque, “não são apenas algumas mudanças de nome e de perfil que ameaçam uma concepção mais abrangente do ensino da comunicação. É o espírito da reforma como um todo. E acho que a ameaça não se limita à graduação. A médio prazo o objetivo do movimento é alterar também a lógica da pós-graduação, impondo também a ela um modelo fragmentário”.

Diz o professor da Federal Fluminense que “não se trata de especulação vazia. Basta observar o documento da Comissão de Especialistas – sempre me espanta a falta de transparência e de consulta pública com que o MEC define quem é ‘especialista’ – responsável pela elaboração das Diretrizes Nacionais para o Curso de Jornalismo”. Com base no trecho da proposta das diretrizes para jornalismo no qual a comissão recomenda ao ministério a ênfase na formação pós-graduada em jornalismo de professores da habilitação, Afonso Albuquerque adverte que “afora o absurdo evidente de uma comissão criada para normatizar cursos de graduação em jornalismo extrapolar a sua autoridade para também normatizar a pós-graduação – o que significa simplesmente passar por cima da Compós como forum de debate sobre o assunto – fica evidente uma atitude preconceituosa em relação à formação teórica em Comunicação. Como esta é a matéria prima básica do nosso modelo de pós, dá para se ver o tamanho da ameaça”.

“De resto, a reforma da graduação é de um fantástico contra-senso”, diz Albuquerque: “Para começar, ela mistura alhos e bugalhos. Jornalismo, Publicidade e RP são campos de atuação profissional, Rádio, TV e Internet são tecnologias da Comunicação, que têm interfaces evidentes com Cinema e Audiovisual – alguém conhece alguma televisão que não veicule produtos audiovisuais? – e multimídia é… Alguém ainda se lembra o que é multimídia?

“Em segundo lugar, prossegue, ela ignora inteiramente a realidade do mercado de trabalho deste século: a convergência das linguagens e dos meios, dos usuários ativos, das redes sociais e assim por diante. O mercado de trabalho real, que emprega uma grande (e crescente) parcela dos alunos que saem da faculdade hoje”. Afonso Albuquerque acha “bizzaro sugerir que ninguém trabalha com ‘comunicação’, mas com ‘jornalismo’, ‘publicidade’ e etc. É justamente o contrário. As pessoas hoje trabalham com comunicação em um sentido integrado, muito mais do que dentro de fronteiras habilitacionais específicas. É público e notório que o mercado de trabalho das organizações jornalísticas stricto sensu está em declínio. Provavelmente, o setor que mais emprega jornalistas no Brasil é a assessoria de imprensa. E só no Brasil assessor de imprensa é jornalista… Os profissionais ‘puro-sangue’ ambicionados por este modelo são, hoje, espécies em extinção. Simplesmente não há mais lugar para eles no mercado de trabalho.

“De onde vem tanta cegueira”, pergunta Albuquerque. “Provavelmente – acrescenta ele – da repulsa mal disfarçada (se é que em algum momento disfarçada) em relação à formação teórica em Comunicação. A formação prática só permite olhar para o passado. Reproduzir modelos estabelecidos. E quando as coisas mudam, e estes modelos entram em crise? Neste caso, o que entra em jogo é a capacidade de diagnosticar a situação, avaliar os elementos envolvidos e propor sugestões originais”.

“A minha sensação, conclui o ex-presidente da Compós, é que o verdadeiro objetivo da reforma é deter a evolução da formação superior em comunicação. Evolução inevitável, dado que as coisas estão mudando, e estão mudando rapidamente. Querer parar a história a golpes de burocracia é algo que nunca dá certo”.

Para Erik Felinto, que também foi presidente da Compós, as mudanças que estão sendo propostas criam paradoxos graves: “… mais preocupante ainda que as diretrizes do MEC é a filosofia (se é que assim podemos chamá-la) que está na base da coisa”. E acrescenta: “É um verdadeiro absurdo que ‘especialistas’ considerem ser impossível pensar sobre qualquer prática humana sem que a tenhamos primeiramente exercido. Nesse caso, ninguém poderia tornar-se criminologista ou fazer sociologia da violência sem ter cometido um crime. Preciso primeiro matar alguém para depois poder refletir sobre as motivações e métodos de Raskolnikov. No domínio dos estudos literários, igualmente, não passaria pela cabeça de ninguém julgar que os escritores seriam necessariamente os melhores teóricos da literatura apenas pelo fato de escreverem literatura (ainda que até possa ser o caso acidentalmente).

“Isso é divertido, admite Felinto, “mas é o de menos”. “O que me parece realmente assustador é a concepção de comunicação (bem como da produção do conhecimento e da formação universitária) que estrutura essa reforma. Em primeiro lugar, essa concepção essencializa realidades histórica e culturalmente determinadas, como o jornalismo ou o cinema, transformando-as em idéias platônicas. Para garantir sua subsistência nas feições que adquiriram historicamente no mundo moderno, mesmo face às violentas transformações tecnológicas, sociais, econômicas e culturais dos últimos anos, é preciso elevá-las ao “topos ouranos” da imobilidade temporal e fetichizá-las da maneira mais rasteira possível.

“Em segundo lugar, acrescenta, criam-se mundos estanques (agora, numa versão bastarda das mônadas leibnizianas), nos quais os campos, as práticas, as teorias são completamente incapazes de se comunicar. Em relação ao cinema, especificamente, o sôfrego desejo de desligá-lo a todo custo da comunicação ou da rubrica “audiovisual” revela um extremo desconhecimento da história da mídia e suas dinâmicas particulares. A mais recente historiografia da mídia vem demonstrando à exaustão que nunca existiu algo como um puro discurso ou forma cultural cinematográfica. Ainda que o cinema pertencesse somente a uma esfera da ‘pura arte’ (como alguns gostariam), sem qualquer relação com questões comunicacionais, teríamos que perguntar de que noção (também historicamente condicionada) de arte estamos falando”.

No caso do jornalismo, a idéia de um “suposto domínio cognitivo da sua especificidade” entra em choque o “cenário em que os impactos tecnológicos das novas mídias – e aqui aceito sem nenhum embaraço a surrada acusação de “determinismo tecnológico” – põem em cheque uma vasta série de hábitos cognitivos e formas tradicionais de produzir e consumir informação”.

Para Felinto, a proposta de reforma curricular apresentada pela comissão “parece conformar-se à certa tendência de pensamento tecnicista e disciplinar que vem assolando o campo da comunicação aqui em nossas terras tropicais. Enquanto no resto do mundo centros de pesquisa e pesquisadores tornam-se cada vez menos apegados a rótulos disciplinares e a objetos nitidamente recortados, por aqui ainda encontra bastante ressonância a fábula dos três porquinhos que se trancam em sua casa enquanto o lobo assopra lá fora. Nesse sentido, o exemplo da literatura comparada, que não teve pudor algum em declarar a dissolução de seu objeto tradicional (e com isso buscar novos horizontes precisamente nos estudos de mídia) é significativo e inspirador. Na UERJ, impressiona-me a quantidade de estudantes que se graduam em jornalismo para depois cursar Relações Públicas ou Publicidade (e vice-versa). Isso porque eles percebem, ao contrário do que insinuam as diretrizes, que o campo profissional da comunicação encontra-se cada vez mais esgarçado e o mercado se interessa precisamente por aqueles que conseguem transitar entre diferentes horizontes práticos e universos de referência cultural.

“Na verdade, conclui o professor da UERJ, se a comunicação já não fosse tão fragmentada quanto é, talvez eles não tivessem que gastar tantos anos fazendo outros cursos. Afonso termina dizendo que ‘parar a história a golpes de burocracia é algo que nunca dá certo’. Eu acrescentaria, lembrando Zizek, que a burocracia é uma das mais representativas encarnações do super-ego: ao mesmo tempo assustadoramente autoritária e totalmente risível em seu incansável afã prescritivo”.

O debate está aberto… Pretendo acompanhar os desdobramentos da discussão e postar no blog as idéias principais apresentadas nas listas.

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Estética e conceito no jornalismo cultural II

Volto ao tema desenvolvido na postagem anterior. Do jornalismo cultural espera-se naturalmente que cumpra sua função de prestador de serviços: é sob esse aspecto que o gênero se encontra com demandas de natureza mercadológica e sobre as quais trabalha com um universo carregado de infomações objetivas e funcionais. As publicações especializadas comprovam isso em todas as suas edições: textos que oferecem ao leitor uma espécie de roteiro em torno do qual ele (o leitor) se situa no panorama das atividades culturais. O gênero, no entanto, dada a sua complexidade sempre crescente, desenvolve-se em outras direções – e as pesquisas mais atuais em torno do tema já conseguiram identificar uma massa elaborações discursivas que se afasta desse primeiro estágio e caminha para um exercício de contextualização das matérias.

Por conta de colaboradores ou por conta de jornalistas especializados nos diversos segmentos da cultura, essa outra abordagem tem nas questões de natureza estético-conceitual um dos núcleos principais de sua elaboração. Sobre essas questões, no entanto, convém desde logo destacar que estão mais presas a um enfoque de perfil analítico, mais propensas ao estilo ensaístico. Invariavelmente, quando o projeto editorial do veículo contempla isso, o volume informativo das matérias cede lugar a um aggiornamento do leitor face ao lugar que o assunto (a obra) ocupa no cenário mais amplo das formulações expressivas, se mais ou menos próxima das propostas de vanguarda, se mais ou menos próxima de questões culturais mais amplas, se emerge como resposta formal para os impasses da arte no mundo contemporâneo. Nesse sentido, a densidade informativa do gênero cede lugar a um cruzamento de possibilidades para as quais jornalistas profissionais especializados ou autores, estes últimos quase sempre de origem acadêmica, oferecem suas interpretações. É em razão dessa constatação que as pesquisas desenvolvidas sobre o tema indicam que o jornalismo cultural é o gênero de maior presença autoral entre todos os outros.

Seria inapropriado nos limites deste post apresentar o elenco de exemplos que comprovam essas características, mas um rápido acompanhamento das edições dos veículos que são considerados referências na área, especialmente impressos, indica uma produção que tem nessa perspectiva estético-conceitual um de seus suportes. O outro suporte é o de natureza ético-política, como dissemos na postagem de 12 de outubro. Volto ao tema ainda uma vez para analisar essa questão.

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Estética e conceito no jornalismo cultural I

Nos estudos que tenho feito sobre o Jornalismo Cultural uma das hipóteses com as quais trabalho é a de que são dois os elementos fundamentais que estruturam a pauta do gênero: as informações e análises de natureza estético-conceitual e aquelas de natureza ético-política. São dois conjuntos que caminham lado a lado, mas é preciso distinguir a especificidade de cada um deles para que seja possível perceber onde reside o núcleo noticioso daquilo que é publicado em suplementos, revistas, seções e cadernos onde a cultura está presente no jornalismo.

No primeiro caso que me ocupa aqui – os elementos estético-conceituais -, o que chama a atenção é o conjunto de proposições expressivas que marcam o objeto das matérias, isto é, as informações que dão conta das relações entre uma determinada manifestação cultural e a realidade, sempre a partir de uma proposta narrativa que emerge das questões colocadas na cultura contemporânea. Obras da literatura, do cinema, do teatro, da música, mesmo quando são reedições, constituem-se em fatos noticiosos do jornalismo cultural não propriamente por sua emergência enquanto fatos, mas por uma abrangência tradutora de posições a respeito de problemas relativos à sociedade em geral e ao indivíduo em particular. Quando isso ocorre, o jornalista se vê na contingência de trabalhar em torno desse sentido mais amplo que a percepção estética permite, debruçando-se sobre o significado social daquilo que está sendo analisado.

Essa breve reflexão vem a propósito da apresentação que José Luiz Braga fez do livro de Sérgio Gadini (Interesses cruzados: a produção da cultura no jornalismo brasileiro). Para Braga, no jornalismo cultural “o texto jornalístico [não] pode se pretender externo ao ‘acontecimento’. Ele não só relata, mas interpreta, comenta, é estruturalmente solicitado a se manifestar em termos de valor”. E acrescenta: “a ‘validade’ (noticiabilidade?) do cultural é menos objetiva em si, mais dependente de valores simbólicos às vezes impoderáveis, em todo caso, menos previsiveis”. Segundo entendo, é nessa característica mediata do gênero e em seu déficit de objetividade que se encontra um dos núcleos específicos do jornalismo cultural, de onde ele retira os parâmetros de identidade com os quais aborda o assunto de sua pauta. A conclusão não me parece tão óbvia, mas é possível especular então com a hipótese de que parte de tais parâmetros estão localizados nas dimensões estéticas e conceituais do fato cultural.

Naturalmente, uma visão mais econômica do gênero leva sempre à constatação de que os fatores determinantes dos fatos culturais explicam-se antes por sua inserção no mercado de bens simbólicos, mas é preciso ponderar sobre essa dupla dimensão da cultura: a da sua racionalidade mercantil e a da sua imanência e interioridade criadora. Esta última é que me parece se constituir, como disse acima, num dos elementos que estruturam o jornalismo cultural. Vamos voltar ao tema na próxima postagem.

Literatura é desafio para o jornalismo cultural

Acabo de encerrar a 1a. aula do módulo sobre Jornalismo Cultural do pós da Unimep. Uma boa discussão com os alunos, tal como ocorreu, me fez refletir ainda mais sobre o verdadeiro desafio que a Literatura representa para o gênero, desde que ele não seja entendido como um espaço do jornalismo reduzido à prestação de serviços e sempre que os editores dos suplementos, cadernos, seções etc não queiram reduzir as matérias a uma coletânea produzida por especialistas. Nessa hipótese, o profissional está diante de um complexo de possibilidades para o qual, segundo entendo, só há uma saída: um mergulho profundo na narrativa literária com os olhos postos na cultura.

É sobre isso que Mário Vargas Llosa fala na apresentação do livro A cultura do romance recém-lançado pela Cosacnaify: a literatura “é um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres vivos se reconhecem e dialogam”. Para Llosa, essa partilha permitida pela arte produz um “conhecimento totalizador” que remete à essência dos processos sociais e, ainda segundo ele, só o romance é que tem condições de fazer isso.

Não é o caso aqui de discutir as teses do escritor peruano, mas essa dimensão da literatura parece inquestionável e põe em cheque sistematicamente o jornalista que trabalha com a cultura, já que a ele compete não propriamente o estudo do estilo, das estruturas linguísticas de uma obra, mas a atenção para o universo dos conflitos humanos que produz aquele território comum de entendimento, um mesmo mapa de significações através do qual o jornalismo cultural se transforma num exercício de reflexão e de esclarecimento.

Digo isso porque em diversas ocasiões, as discussões em torno do gênero têm sido permeadas pela visão invariavelmente conclusiva de que tudo se resume às pressões econômicas desencadeadas pelo mercado dos bens simbólicos sobre os veículos. Sem descartar a hipótese de que tais pressões realmente ocorram, pondero sobre um dos mecanismos de resistência a elas: a qualificação intelectual do profissional da imprensa. No caso da Literatura, isso não é possível sem o conhecimento denso do universo ético-político em que ela se manifesta, mais do que seus parâmetros estéticos e estruturais.

Diretrizes curriculares para os cursos de Jornalismo

O Ministro da Educação recebeu ontem (18/09) o documento que propõe novas diretrizes curriculares para os cursos de Jornalismo. O estudo, elaborado por comissão de especialistas designada por Fernando Haddad, deve agora ser submetido à apreciação do CNE. Caso as diretrizes sejam aprovadas na sua concepção geral – ainda que sofram ajustes na tramitação da Câmara de Educação Superior do órgão – a proposta passa a valer como orientação para todo o país e deverá provocar mudanças significativas na orientação e na estrutura didático-pedagógica dos cursos.

A primeira e mais polêmica mudança será a transformação do Jornalismo em curso específico, não mais concebido como uma habilitação da Comunicação Social. Em comentário anterior feito neste blog (leia aqui), ponderei sobre a dupla dimensão que essa idéia poderia adquirir caso viesse a ser apresentada: de um lado, a possibilidade de que inspirasse uma aversão à reflexão teórica em torno de processos que explicam o campo ontológico do Jornalismo; de outro, a perspectiva de que, uma vez autônomos, os cursos pudessem trabalhar com maior ênfase na especificidade conceitual do campo profissional. O documento entregue ao MEC mostra que seus autores foram cuidadosos no tratamento dessa questão, não apenas porque acenam com o respeito à Área do Conhecimento em que o Jornalismo se insere, mas também em razão dos fundamentos com os quais justificam sua proposta.

Os fatos parecem dar razão à comissão de especialistas, especialmente porque as novas diretrizes emergem como um roteiro que procura resgatar a identidade da formação profissional, fortemente abalada pela extinção da obrigatoriedade do diploma determinada pelo STF. Se levarmos em conta a qualidade da sustentação teórica que os autores do documento apresentado a Fernando Haddad dão aos argumentos pela formação específica, penso que as novas diretrizes representam um avanço significativo na formação dos jornalistas, mas não só por isso: também pela coerência e consistência com que apresentam os eixos em tornos dos quais as estruturas dos cursos devem gravitar.

Evidentemente, agora que se tornou público e depois da expectativa com que os envolvidos no assunto aguardavam o estudo, o resultado final da comissão entra no território aberto da polêmica, mais do que foi permitido pelas audiências públicas e pelas discussões que sua gestação provocaram nas várias listas (leia aqui, por exemplo, o documento do Prof. Fábio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo, contrário às diretrizes sugeridas pela comissão).

Particularmente, estou convencido de que a proposta apresentada ao MEC caminha na mesma direção de um consenso que vai se criando depois da decisão do STF: é preciso fortalecer a qualidade e a identidade dos cursos como instrumento legitimado de formação dos jornalistas. A dúvida sobre a viabilidade dessa construção fica por conta da competência e da seriedade com que professores e escolas darão conta do desafio.

O simbólico e o econômico no jornalismo cultural

Volto ainda uma vez ao artigo de Graham Murdock (Comunicação contemporânea e questões de classe) publicado no último número da revista Matrizes, da ECA/USP, agora para uma rápida reflexão que envolve a recorrente polêmica conceitual sobre a natureza do jornalismo cultural.

Murdock, a certa altura do seu texto, reitera a clássica interpretação segundo a qual há, na imprensa e na esfera dos meios de comunicação em geral, uma permanente tensão “entre os interesses políticos e comerciais de proprietários (…) e a integridade profissional e criativa de jornalistas, dramaturgos de televisão, produtores cinematográficos e músicos…”. Segundo ele, o resultado disso tem sido não apenas a preocupação de que o capital social e econômico e seus interesses privados se sobreponham aos interesses públicos, mas a evidência mesma de situações em que essa disputa desemboca na existência de uma “mídia rica” no âmbito de uma “democracia pobre”, em especial no campo da produção cultural, isto é, um aparelhamento empresarial técnica e financeiramente forte, mas frágil do ponto de vista da abordagem e das discussões sobre os grandes temas da sociedade contemporânea.

Penso que há inúmeros motivos para concordar com a tese: basta acompanhar o movimento das pautas de alguns dos grandes veículos, em especial no campo do jornalismo, para se perceber que há um embotamento geral da criatividade de seus profissionais. Em alguns momentos, chega a ser sonolento o mesmismo das abordagens, dos destaques e até dos textos que circulam nas diferentes mídias, em especial naquelas que integram complexos da comunicação. Particularmente, atribuo isso, além das causas gerais apontadas por Murdock, às rotinas da produção e a uma espécie de servidão que elas vivem em relação a fórmulas mercadológicas bem sucedidas. Se associarmos isso ao universo de mudanças de natureza profissional vividas pelos jornalistas (brevemente apontadas por Murdock), temos aí um bom contexto onde buscar a explicação para o paradoxo entre o dinamismo espetacular que a produção midiática adquire crescentemente e esse acanhamento de conteúdo cujo resultado é uma sistemática práxis reiterativa do cotidiano.

As perspectivas que identifico nesse cenário, no entanto, não são exatamente pessimistas porque há uma outra contradição que me parece não suficientemente explorada: a fragilização dos grandes veículos provocada pela disseminação das tecnologias digitais, especialmente na área do jornalismo cultural. Onde era possível encontrar uma agenda dada pelos grandes jornais, por exemplo, verifica-se agora a possibilidade de construção de uma pauta que escapa ao seu poder econômico e avança na direção da ocupação do espaço público com temas que recuperam o capital simbólico da inovação jornalística. No caso da produção cultural e de sua inserção nessa esfera dilatada da imprensa, arrisco dizer que esse movimento chega contrabalançar o poderio do capital organizacional e social da mídia hegemônica. Naturalmente, o tema exige pesquisas de vulto que tomem como objeto até mesmo a quantificação parcial das páginas na rede que veiculam uma produção independente do jornalismo cultural e a checagem do impacto que essa nova produção tem sobre as editorias dos grandes veículos, mas aquilo que pode ter sido um fator de desarticulação do campo jornalístico, a “flexibilidade” apontada por Murdock no universo das relações de trabalho, no campo do simbólico, em parte em razão das inovações tecnológicas, pode estar significando uma revitalização das pautas e das coberturas. Quero voltar ao assunto.

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Pré-sal

Não encontro argumentos para ter qualquer atitude contrária ou cética em relação à posição que o governo adotou na questão do pré-sal. Quando leio ou ouço nos grandes veículos de informação que Lula está usando o tema com motivações eleitorais, aí sim é que percebo a intenção de campanha que a mídia dá ao assunto. Penso que o Brasil está diante da 3a. grande oportunidade de impulsionar o desenvolvimento econômico em bases independentes dos grandes interesses privados internacionais ou nacionais. A primeira ocorreu com a criação de Volta Redonda; a segunda, quando a Petrobrás foi fundada. Nessas duas ocasiões, prevaleceu o interesse público, não propriamente o interesse do governo, mas o do Estado brasileiro. E também nessas duas ocasiões o discurso contrário à iniciativa de Vargas foi muito parecido com o de agora – menos no caso de Volta Redonda, mas intensamente no caso da Petrobrás.

Pois me parece que estamos diante de um momento parecido, não só porque as reservas do pré-sal são estratégicas como recursos minerais que devem permanecer nas mãos do Estado, mas porque o volume de divisas que elas representam pode dar sustentação a um desenvolvimento socialmente orientado, isto é, capaz de promover uma mudança profunda nos setores de maior carência da vida brasileira (Educação e Saúde, por exemplo). Deixar que o grande capital, qualquer que seja a sua constituição ou origem, se apodere disso significa manter a lógica do país como um grande exportador de commodities, mas estruturalmente pobre (leia aqui matéria da BBC Brasil sobre os efeitos que a crise teve sobre o perfil das exportações brasileiras). Aliás, foi esse o destino das principais nações periféricas exportadoras de petróleo e de outras matérias primas industriais.

Quero acompanhar com cuidado a tramitação das medidas que o Governo Federal enviou ao Congresso e conferir os argumentos que vão dominar o debate, especialmente os fundamentos das posições contrárias ao projeto oficial. Sobre o tema, sugiro a leitura do artigo (A tarefa maior) de Janio de Freitas publicado na Folha de 3 de setembro (convertido para o word para que fosse possível postá-lo aqui).

Bug no Congresso

Ando com minha atenção voltada para dois ou três problemas que ocupam as manchetes principais dos grandes jornais. De todos eles, o que mais me incomoda é a possibilidade de que a reforma da lei eleitoral acabe impondo restrições ao uso da internet nas campanhas dos candidatos. Tento entender a lógica do legislador quando leio que essas restrições atingiriam não propriamente os sites noticiosos ou as páginas on-line dos principais veículos de comunicação, mas os blogs. Isso mesmo: os blogs.

Minha suposição é a de que a autoria da proposta – que tem fortes possibilidades de aprovação – acredita que o movimento dos sites produzidos por entidades, associações, movimentos e cidadãos independentes, sem compromissos com os grandes grupos de mídia, tenham hoje uma presença tão forte na vida política brasileira que seriam capazes de influenciar, de maneira decisiva, os resultados eleitorais. Ora, se é assim, uma restrição dessas passaria a confrontar a própria Constituição já que privaria um setor importante da opinião pública do seu direito à liberdade de expressão. É evidente, no entanto, que não se trata disso. Há uma extensa faixa da população brasileira que nem de longe é atingida pelas manifestações da rede, o que tornaria a proibição absolutamente inócua. Se for isso, aí é que a restrição não se justificaria de jeito nenhum.

Pois é justamente essa dificuldade em localizar as razões da proibição que me chama a atenção. Penso que estamos diante de uma questão mais profunda que a simples tentativa de evitar supostos “desmandos” ou “abusos” de campanha cometidos na rede: a ignorância que uma parcela significativa dos parlamentares brasileiros mantém em relação aos processos que se desenvolvem na sociedade brasileira. A esta altura da expansão das redes virtuais que existem no interior dos centros urbanos, quase que universalmente espalhadas por quase todas as faixas etárias, todas as classes e todos os gêneros, ignorar que restrições à internet possam simplesmente ser inviabilizadas é negar a realidade. E o que é pior, negar a realidade com fundamento numa aversão a um dos equipamentos mais dinâmicos da modernidade.

A sensação que tenho ao ler as notícias sobre a proposta, em especial os argumentos que a justificam, é a de que os grupos parlamentares que a apoiam se constituem num reduto do que há de mais atrasado na representação politica brasileira, uma espécie de trincheira das práticas pré-históricas dos processos eleitorais. Ou é isso ou estamos diante de uma camuflagem que quer preservar a influência dos grandes veículos de comunicação nas escolhas dos eleitores, fenômeno que a internet tende a relativizar. Dizem os setores de centro-esquerda que a proposta não passa. Até lá podemos verificar qual é a tendência dos que visitam esta página: leia o artigo de Juliana Lima, do blog Jornalismo nas Américas, e opine na enquete ao lado.

Resultado da enquete: 60% dos que opinaram são contrários a qualquer tipo de restrição à propaganda política na internet; 30% são favoráveis apenas a restrições que atinjam a propaganda de candidatos; 10% concordam com restrições a todos os conteúdos da campanha eleitoral para as eleições de 2010.

Nova economia e comunicação, quase 10 anos depois

Terminei o trabalho que pretendo apresentar no Congresso de Produção Científica da Metodista. O tema do paper gira em torno de um assunto que ocupou parte das minhas leituras nos últimos anos: passado o deslumbramento provocado pelo impacto das novas tecnologias na economia global, o que restou das promessas de expansão universal da riqueza e da criação de uma nova cultura? No trabalho, tento responder essas questões recorrendo à verdadeira mitologia que a mídia criou em cima de um conceito que, segundo entendo, depois de quase 10 anos, na prática reforçou a natureza concentracionária do capitalismo com efeitos perversos para todas as sociedades. No âmbito da cultura, a consagração de uma dicotomia: o fosso existente hoje entre a funcionalidade e a disfuncionalidade, categorias e normas que atingem todas as áreas da atividade humana.

Minha explicação para o paradoxo que se criou no final dos anos 90, que foi percebido por poucos estudos acadêmicos – invariavelmente por aqueles apoiados em construções teórico-metodológicas de extração radical – é que faltou o conhecimento sobre os processos históricos e sobre o dinamismo das lutas sociais. Vistas as coisas com a perspectiva do presente e tendo no nosso cotidiano as marcas do rescaldo da crise geral que atingiu a economia global no final do ano passado, algumas conclusões são possíveis, pelo menos alguns indicativos, o mais importante deles sobre as práticas discursivas dos profissionais da comunicação: podem ter percebido que devem colocar sua compreensão sobre o que ocorre no mundo a serviço da recuperação do caráter finalista da economia e, com isso, torná-la efetivamente global – não meramente no sentido geográfico ou físico do termo, mas no seu sentido universal, socialmente universal.

Pretendo discutir essas questões no Congresso de outubro.

Lições de uma entrevista

Everardo Maciel foi entrevistado na manhã de hoje por Anchieta Filho, da Jovem Pan. Maciel foi secretário da Receita Federal entre 1995 e 2001 e sua opinião sobre a suposta crise criada com a demissão de funcionários do órgão vai na contramão das manchetes dos principais jornais do país: para ele, estamos diante de um “factóide” criado com objetivos políticos e a Receita ganha em transparência com o afastamento dos demissionários. Ouça aqui a entrevista e perceba as lições que ela oferece para a leitura da imprensa. Luis Nassif, por exemplo, ficou indignado com a manipulação do mesmo episódio na TV (leia a matéria publicada na Carta Maior)

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Democracia incompleta

O preço que o Brasil paga por sua tradição política conciliadora é o que está aí: uma democracia permanentemente posta sob a dúvida da descrença (leia aqui o artigo de Thiago Romero sobre o assunto) e sistematicamente condenada pelos bolsões de corrupção das elites que sobreviveram a todas as mudanças recentes na história do país. Nem mesmo um governo de forte extração popular, como é o de Lula, conseguiu escapar dessa armadilha: não pode sacrificar a governabilidade que consegue com a maioria parlamentar; em troca disso, convive e garante a vida de figuras como a de Sarney. O resultado é o pior possível porque essa lógica de afago com aquilo que há de mais atrasado no sistema de poder corrói não propriamente a popularidade do presidente, mas todo o conjunto de promessas e princípios sobre os quais construiu a liderança de sua identidade.

No entanto, imaginar que isso se restringe ao Congresso e aos “políticos” é esquecer a rede de favorecimentos ao poder econômico e a convivência com os traços do modelo concentrador da renda que subsiste na vida brasileira e de todos os benefícios que empresários de todos os setores retiram disso. No Senado, isso assume a forma de desvio de recursos; mas na vida econômica são os subsídios de toda ordem, fraudes nas concorrências públicas, bancos que praticam agiotagem descarada, uma econonomia cartelizada que tem muito pouco de liberal. Também em direção a esses setores o governo é obrigado a dirigir acenos de convivência sem os quais não consegue administrar a vida econômica do país. Na verdade, segundo entendo, é todo o conjunto das elites que se encontra contaminado, sem um claro projeto consistente de construção nacional: nas suas mãos, continuamos a ser um grande feudo, uma grande propriedade particular.

Digo tudo isso porque os episódios que culminaram com as dificuldades enfrentadas por Lula na semana passada – marcadas na 6a. feira pelo esforço em manter Mercadante na liderança do PT no Senado – me fizeram lembrar o isolamento de Vargas em 1954 e o de Jango em 1964. É claro que todas essas conjunturas são diferentes e nem se pode fazer qualquer associação maior entre as três situações, mas é curioso notar que a crise de representação partidária e a sistemática campanha de desmoralização institucional – itens de forte mobilização das classes médias – sempre estiveram presentes quando o objetivo das elites foi o de fragilizar o presidente da República, figura para a qual – nas duas ocasiões anteriores – convergiam todas as garantias de frágil equilíbrio político, como se Vargas e Jango, cada um à sua maneira, representassem os últimos obstáculos a serem removidos, apesar de sua forte popularidade.

Posso estar enganado, mas minha impressão é a de que estamos diante de uma vaga denuncista, pontilhada pela alavancagem midiática de candidaturas de esquerda, cujo objetivo parece ser o do desgoverno no território do parlamento brasileiro, pois que é ali que se constrói a sustentação do sistema político. Não fosse o descolamento que a economia guarda em relação a isso e a conjuntura estaria ainda mais deteriorada. É por isso que gostei do recuo de Mercadante: sua saída da posição de líder do governo no Senado agravaria ainda mais esse conjunto de dificuldades; sua permanência esvazia o discurso conservador (leia aqui a carta de Lula a Mercadante).

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Gripe suína reitera nova representação da escola particular

Se alguém ainda não tinha percebido isso em situações anteriores, o episódio do adiamento do reinício das aulas em razão das ameaças do vírus H1N1 serviu também para não deixar dúvidas sobre a mudança que a representação simbólica da escola privada sofreu no país. A versão antiga do colégio particular era próxima do conjunto de extensões culturais da classe média: o médico, a igreja, a liderança comunitária. Essas instâncias da sociabilidade eram vistas como redutos irrestritos da confiança familiar: acreditava-se nelas de forma categórica e nem se imaginava que sua orientação pudesse ocultar qualquer intenção que não fosse o genérico bem-estar da esfera privada. É claro que essas relações fundadas em fortes laços pessoais ocultavam inúmeras dissimulações de poder e de domínio, mas penso que no cotidiano esse era o caminho através do qual um certo conformismo encontrava soluções para a ordem natural das coisas: a educação, a saúde, a paz do espírito e até mesmo a orientação política tinham nesses polos de influência respostas de credibilidade indiscutível.

A modernização capitalista colocou tudo isso abaixo e a escola é uma das instituições que paga o preço da mudança: a privatização do ensino foi tão aguda, a noção da educação como serviço ficou tão arraigada na vida brasileira que o que antes era uma relação de confiança transformou-se em relação mercantil cujo núcleo ideológico – como de resto em todas as outras dimensões da existência social – é a troca de equivalentes, isto é, tudo deve corresponder ao preço pago. No final das contas, a escola é uma operadora com a qual se tem um contrato, e essa relação contratual é sistematicamente medida não mais pela confiança, mas pela suposição de que se o atendimento ao cliente não for integral e satisfatório, algo deve ser feito pelo ressarcimento de quem se julga enganado, neste caso o aluno ou os seus responsáveis.

Agora mesmo, quando as escolas foram “obrigadas” a suspender o reinício das aulas, nem foi preciso muito tempo para que os atores envolvidos no problema se manifestassem: os pais foram logo questionando o pagamento dos dias parados e querem ou uma coisa ou outra – ou o seu desconto em valores ou a reposição integral das aulas; as escolas põem em dúvida se devem pagar seus professores e acenam para eles com calendários draconianos de reposição das aulas, obviamente para que não tenham que mexer no próprio bolso, mas continuam indignadas com a possibilidade de que a emergência tenha se tornado “férias suplementares” para os mestres; os professores, de seu lado, dispostos a cumprir com o seu ofício, se veem no meio desse tiroteio e, como é natural, defendem seus direitos.

Pode parecer exagero, mas há uma farsa montada em torno disso tudo porque já se sabe que o estrago no semestre letivo está feito e que nada conseguirá restabelecer a sua normalidade. Conteúdos programáticos, projetos de ensino, eficiência didático-pedagógica, tudo isso foi deixado para trás porque os discursos articulados em torno desses princípios são vistos com descrédito (ou com desconfiança, o que é mais grave): o importante é o valor; melhor, o preço, porque valor é outra coisa. O resultado é o que aí está: um problema de saúde, tratado em meio a trapalhadas de todos os lados, acabou tendo um aspecto positivo: revelou – como se outros fatos já não o tivessem demonstrado – que a escola pode ter perdido sua credibilidade como instituição educacional, ainda que encontre soluções que deixem sua clientela satisfeita.

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Pondo as ideias em ordem

Acabo de ler o artigo de Graham Murdock, Comunicação contemporânea e questões de classe, publicado no último número da revista Matrizes, da ECA/USP. Murdock é professor do Instituto para Comunicação de Massa da Universidade norueguesa de Bergen, e está disposto a resgatar o conceito de classe, entendendo que sua ausência nos estudos atuais, “bloqueia uma visão abrangente das condições contemporâneas” dos processos comunicacionais. O texto disponível em Matrizes – aliás, até agora o melhor número da revista – é uma excelente oportunidade para que os pesquisadores da área, quaisquer que sejam suas tendências filosóficas, ponham um pouco de ordem na dispersão teórica que tomou conta das Ciências Sociais nos anos recentes.

Para o autor, que se incumbe de historiar de forma bastante ampla o surgimento e o desenvolvimento da idéia de classe desde os primeiros textos de Marx, esse deslocamento para os lados daquela que pode ser vista como a referência fundamental da sociologia moderna foi o resultado da emergência de novos grupos no interior da sociedade pós-industrial, percebidos nas novas tendências teóricas não mais como segmentos do mundo do trabalho, mas como extratos portadores de uma gama complexa e exclusiva de padrões culturais, estes sim entendidos como o nexo causal de seu comportamento.

Foi o que bastou para que a pesquisa se voltasse “a descobrir as possibilidades para a liberação pessoal e autoexpressão” como um imenso universo de manifestações voluntariosas, desprovidas de sentido político e econômico, ainda que repletas de brilho de natureza coletiva e comportamental. Certamente, foi nos estudos dos processos comunicacionais que essa vaga obteve maior número de adeptos, até porque também foi neles que se manifestou empiricamente, mas eventualmente apenas na superfície dos processos sociais, o mundo informacional, midiático e cultural, que aparentemente transcendia as classes e se universalizava para todo o conjunto da sociedade.

O resultado a que assistimos agora, passados cerca de 40 anos desde o início dessa tendência, é a perda da percepção sobre a essência das contradições do mundo contemporâneo e a fragmentação particularista dos estudos que são feitos sobre os processos sociais, inclusive os da Comunicação.

Murdock apresenta cinco conclusões de sua análise, todas elas funcionando como uma espécie de roteiro para a superação das carências teóricas construídas em torno do abandono do conceito de classe. Elas vão desde a recuperação dos estudos de Bourdieu até a identificação das peculiaridades dos sistemas de sentido inerentes a cada formação social. Não é o caso de explorar aqui cada uma de suas sugestões, mas é sintomático que a proposta de uma revisão sociológica em profundidade dos conceitos com os quais as ciências da comunicação tabalham suja no momento mesmo em que todo o complexo midiático empresarial vai dando mostras de ser incapaz de construir uma cultura transcendente das condições econômicas e políticas do universo de sua audiência. Vale a pena ler o texto de Murdock.

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Adiamento das aulas: um erro atrás do outro

Não fosse pelas implicações sanitárias que tem e o episódio do adiamento do reinício das aulas teria tudo para se transformar numa dessas comédias de erros que bem poderia ser aproveitada pelo Saramago. Até agora, não há uma única justificativa consensual para a medida e provavelmente vamos chegar à data limite desse recesso (dia 17?) sem qualquer certeza de que o caos provocado nas escolas tenha valido a pena.

O que me parece estar por trás dessa trapalhada é o corre-corre político que anuncia a disputa eleitoral de 2010, porque evidentemente ninguém quer a batata quente da gripe suína nas mãos, muito menos os estados governados pelo PSDB. Medidas de urgência, bem ao sabor da maneira como a mídia as trata, fazem bem para o eleitorado e, pelo menos em São Paulo, todas foram tomadas na contra-mão das mensagens “tranquilizadoras” emitidas pelo Ministério da Saúde. O resultado é o que se vê: ao lado do bate-boca travado na imprensa entre as autoridades do setor, a população desorientada e a desordem instalada no funcionamento do semestre letivo.

Infelizmente, em situações desse tipo, quem paga o pato são os professores e as professoras que estão diante de uma equação difícil de resolver: tiveram, à sua revelia, duas semanas de recesso, caso não tenham sido convocados para cumprir seus horários normais de aula mesmo sem os alunos. Mas, em qualquer dos dois casos, começam a perceber que o preço cobrado por isso vai sair caro: a extensão das aulas por um período indefinido, em alguns casos com o sacrifício, desde já, de sábados inteiros de reposição. Como muitos docentes (em São Paulo o percentual é de 40% nas escolas particulares) lecionam em mais de um lugar, qualquer calendário é impraticável.

Até onde consigo perceber, a única solução é a redução da carga letiva do semestre – para que a precipitação que provocou tudo isso não acabe desembocando numa desordem didático-pedagógica e operacional generalizada.

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Jornalismo versus Comunicação

Recebo, em lista, email do Prof. Edson Spenthof, presidente do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo. O conteúdo da mensagem pretende “tranquilizar” os destinatários para a possibilidade de que, com as novas diretrizes curriculares, as habilitações em jornalismo ganhem autonomia e se desvinculem organicamente dos cursos de Comunicação, tal como já aconteceu com Cinema. Muito saudável a iniciativa do Prof. Edson, mas os argumentos que ele usa me deixaram ainda mais intranquilo, especialmente os exemplos tomados da área das ciências biomédicas. Quer dizer, então, que dentistas não estudam Anatomia como os médicos porque os cursos de odontologia se desvecilharam dos cursos de medicina?

Mais grave ainda é a afirmação de que a criação dos cursos de Comunicação obedeceu a um projeto de dominação imperialista e conservador que envolveu a Unesco e o Ciespal, “no contexto da Guerra Fria e anos de chumbo no Brasil”. A história é conhecida e resulta de um ensaio do Prof. Eduardo Meditsch, da Universidade Federal de Santa Catarina, para o qual, no entanto, faltam evidências e elementos empíricos que comprovem a hipótese. Como argumento de natureza acadêmica, posto da forma como o presidente do FNPJ o faz, desrespeita e ofende quem o lê.

Jornalismo é Comunicação e não há malabarismo teórico, filosófico ou epistemológico que consiga contornar isso.

No entanto, e particularmente, não tenho nada contra a autonomia do Jornalismo em relação à Comunicação, preservada a vinculação ontológica entre os processos que se intercambiam entre os dois. Mas acho que a formação específica teria muito a ganhar com a desvinculação. Contudo, as razões que justificam uma mudança dessa ordem exigem mais profundidade, muito mais do que o arrazoado do Prof. Edson. Pode ser uma impressão – e torço para que seja -, mas esse “resgate” do Jornalismo anda meio contaminado por um ressentimento anti-acadêmico que pode ter efeitos empobrecedores para a filosofia norteadora das diretrizes curriculares.

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Precipitação dos cursos deixa medíocre o ensino de jornalismo

O fim da exigência do diploma decidido pelo STF e a ameaça de que tenham sua existência posta em dúvida pela qualidade do ensino que oferecem está levando alguns cursos de jornalismo a reformas curriculares precipitadas que podem agravar ainda mais a sua mediocridade. Evidentemente, há as exceções de sempre representadas pelas faculdades que têm projeto pedagógico definido e consistente e que procuram oferecer aos alunos formação universitária sólida. Mas, a julgar pela matéria publicada na Folha desta semana, uma boa parte dos cursos está promovendo mudanças meramente cosméticas, num afobamento que pode trazer como resultado um distanciamento ainda maior entre os desafios do jornalismo e a qualificação dos alunos para enfrentá-los.

Penso que esse corre-corre curricular é provocado por uma identificação equivocada do cerne da questão: não se trata de preparar o estudante de jornalismo para o mercado, obrigando-o a um praticismo para o qual as empresas estão muito melhor preparadas. Trata-se de dotá-lo de instrumentos que lhe permitam refletir sobre os impasses de natureza experimental e teórico-conceitual da profissão. Nesse sentido, a história, contada não sem um certo ar de satisfação pelo coordenador de um desses cursos, segundo a qual os alunos do 1o. ano vão trabalhar com blogs e com o twitter, dá bem uma idéia do caráter acanhado da concepção que alimenta parte das reformulações no ensino de jornalismo que ainda estão por vir. Melhor será aguardar a definição das novas diretrizes curriculares, na hipótese de que a comissão encarregada de elaborar a proposta que será enviada ao MEC não tenha caido na mesma tentação.

Em tempo: boa a iniciativa da Cásper Líbero em oferecer “a estudantes de graduação ou portadores de diploma de nível superior (de qualquer área do conhecimento)” o curso A arte de fazer jornalismo. A proposta, muito bem estruturada e sob responsabilidade de profissionais qualificados que atuam na imprensa e na universidade, é (até onde sei) a primeira investida de uma instituição na nova realidade criada com o fim da exigência do diploma. As reações de ira e de reprovação manifestadas nas listas de discussão da área não contribuem em nada para adensar o debate em torno das novas perspectivas do ensino de jornalismo.

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Diversidade e riqueza no twitter

Neste momento, tenho exatos 346 seguidores no twitter, a maioria formada por alunos e alunas da Metodista e da Puc. No início, confesso que tinha muitas restrições a uma certa precariedade discursiva que observava nas postagens de todos e não fosse pelas ponderações de uma amiga jornalista que insistia nas potecialidades desse tipo de rede, acho que teria deixado a coisa pra lá.

Minha percepção sobre isso mudou bastante. Primeiro, em razão das notícias dando conta das guerrilhas de comunicação que o twitter tem permitido. No Brasil e no exterior, já são diversos os casos de amplificação de informações mobilizadoras que encontram na plataforma das micropostagens um instrumento tão dinâmico quanto democrático. Os exemplos são muitos, mas me parece que o episódio recente do acompanhamento da votação do STF sobre o fim da exigência de diploma para jornalistas é sintomático: nem bem os juízes acabavam de proferir seus votos e a notícia já estava na rede. No final da sessão, quando saiu a sentença, já havia do lado de fora do Supremo, por todo o país, um intenso movimento em torno do assunto. Não discuto o acerto desta ou daquela posição, mas o fato concreto da disseminação da notícia e da opinião; isso, sim, é muito positivo.

O segundo motivo que me deixa olhar o twitter com outra perspectiva está mesmo no conteúdo das postagens do cotidiano, essas que levam a sério o propósito do twitter e de outras redes (“o que vc está fazendo agora”). Descemos aí a uma hiperindividualidade reveladora de quase tudo: tem gente que reclama do frio, da solidão, da fome, do trabalho, fala de sexo, diz palavrão, dá conselhos – um mural meio radiográfico de ansiedades, de expectativas que abragem uma disposição de escancaramento que só mesmo os “meus diários” das meninas do passado é que permitiam – se é que permitiam. Pois é aí que eu quero chegar.

Meus 346 seguidores fazem tudo isso – e haja paciência para ler tanta “angústia existencial” – mas registram um outro conjunto de experiências – vou chamar de culturais – que os envolvem: bandas que ouvem, filmes que assistem, livros que leem, notícias sobre fatos variados da vida brasileira que comentam; um universo de percepções de uma variedade tão grande quanto a sua complexidade. E não é que o @qualquercoisa, que eu apenas li lamentando sobre uma ficada que não deu em nada, mostra ser possuidor de um refinado gosto musical? E a @fulana, depois de mal-dizer um fim de semana trancada em casa, me sai com um comentário preciso e denso sobre um filme?

Sei perfeitamente que isso tudo pode ser passageiro e que há em meio aos frequentadores do twitter os malandros de sempre: empresas, messiânicos, oportunistas do esporte e da política. Mas seria muita ingenuidade imaginar que a rede é seletiva e que pode ser condenada por conta desse tipo de frequência – ela é absolutamente incontrolável. O que eu quero dizer é que esse instantâneo caótico, desordenado e anárquico das micropostagens no twitter tem me ensinado muito sobre o universo das pulsões intelectuais dos meus seguidores e tenho sido surpreendido não só com a sua diversidade, mas também com a sua riqueza.

Flip 2009: jornalismo cultural em débito

A cobertura da Flip já foi objeto das pesquisas que desenvolvo na Metodista sobre o jornalismo cultural. Nas edições anteriores do evento identifiquei um conjunto de matérias que procuravam esclarecer o universo da literatura contemporânea a partir da análise das obras cujos autores estavam em Paraty.

Minha conclusão até 2008: os jornalistas que acompanharam a feira em outros anos ofereceram aos leitores de seus veículos um bom roteiro de natureza estético-conceitual que enriquecia a compreensão do público sobre o foco principal daquilo que rolava na cidade A leitura que fiz então permitia a conclusão de que estava diante de um consistente exemplo da dimensão mais profunda do gênero, ainda que fosse preciso relevar uma certa e inevitável propensão ao tratamento mítico (e espetacularizado) dos personagens centrais do acontecimento.

Em 2009, no entanto, minha percepção sobre a Flip sofreu algumas mudanças. A primeira delas vem ancorada numa constatação que me parece bastante evidente: a feira acabou se tornando um território mais das editoras do que da Literatura. Penso que fica confirmada a tese de Alberto Dines já postada neste blog: a pressão empresarial que se faz em torno dos lançamentos literários cria embaraços para a cobertura jornalística.

A segunda mudança diz respeito à maneira como o mundo das celebridades literárias foi comemorado pela imprensa. Explico: ninguém tem nada contra a exposição das excentricidades dos escritores, mas a falta de comedimento com que isso é tratado nas coberturas especializadas inverte o núcleo noticioso que a Flip tem para o jornalismo cultural.

No final das contas, tenho dúvidas sobre o significado que adquiriu para o público a profusão de matérias que transformaram a vida privada de expoentes da literatura contemporânea em objeto de um culto massivo que acabou por ofuscar o sentido de sua obra.

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Produção científica

Três textos disponíveis na coluna ao lado (em Produção científica: qualidade versus quantidade) dão conta dos dilemas que os pesquisadores brasileiros, em especial aqueles vinculados à Universidade, estão enfrentando. O tom geral é dado por Olgária Mattos, que identifica uma mudança na vida acadêmica capaz de condicionar o próprio conceito da reflexão científica e cultural. Apanhados em cheio pela idéia de um produtivismo a todo custo, os docentes e os alunos estão fazendo fazendo tábula raza da dimensão – eu diria narrativa – do conhecimento científico. Estamos em meio a uma vaga empirista que tem nos intermináveis e inconsistentes estudos de caso, sem precisão conceitual ou metodológica, a razão de ser da própria instituição universitária. Pouco importa se o estado da arte nos vários campos do conhecimento avança. O importante é emplacar em algum periódico e garantir os níveis quantitativos dos relatórios da Capes.
Mas as consequências específicas dessa conjuntura aparecem nos outros textos – um, da revista Pesquisa; outro, do suplemento EU& Fim de Semana do jornal Valor Econômico. Depois de passar pelo ar meio entristecido de Olgária, vale a pena ler os dois. Como agora não é mais o âmbito da circulação dos periódicos o que os classifica no Sistema Qualis, mas o índice de citação dos trabalhos publicados em outras produções, a comunidade científica vive um ambiente de intensa selvageria com consequências predatórias para o esforço editorial de inúmeros programas de pós-graduação: simplesmente ninguém quer publicar senão nas revistas melhor situadas nos novos estratos.
As consequências podem representar a marginalização de qualquer artigo que não atenda os requisitos do prestígio, mais do que os requisitos da consistência científica. O resultado é o que já se vê, pelo menos no campo das Ciências Sociais Aplicadas: artifícios estatísticos (como mostra o suplemento do Valor) e um distanciamento cada vez maior entre os principais fenômenos da área da Comunicação e a reflexão acadêmica que se faz sobre eles; muito malabarismo, poucos resultados. Em outras palavras: a produção cresce, mas pode estar crescendo sobre um extraordinário vazio conceitual e cognitivo que deixa longe o entendimento sobre a natureza mesma dos fenômenos que estuda.

A hora da verdade para os cursos de Jornalismo

Em meio à profusão de manifestações que se seguiram à decisão do STF de acabar com a obrigatoriedade do diploma específico para o exercício da profissão, vai ficando claro que as atenções começam a se voltar para os cursos: afinal, se tivessem conseguido vincular sua existência de maneira imprescindível ao exercício do jornalismo, é pouco provável que sua exigência pudesse ser questionada por quem quer que fosse. A deliberação do Supremo, por conta disso, contou (e ainda conta) com um importante aliado: a opinião generalizada, até mesmo entre os próprios jornalistas, de que os cursos são desnecessários, ou seja, não é preciso cursar Jornalismo para ser jornalista. Isso é verdade ou estamos diante de um argumento fundado na vulgaridade do senso comum e na lógica que inspirou o combate que as empresas moveram contra a obrigatoriedade do diploma?
A resposta é difícil, claro, mas penso que, esfriados os ânimos, é preciso apontar para aquela que considero a fragilidade maior dos cursos de Jornalismo: a baixa densidade reflexiva e cultural que eles oferecem em contraposição à banalidade das experiências práticas exigidas dos alunos. Com exceção de algumas poucas estruturas curriculares que conheço (não mais que 2 ou 3), até agora os cursos devem sua montagem a um conjunto dispersivo de disciplinas teóricas que raramente se articulam nos eixos dos campos do conhecimento e a um outro conjunto de exercícios laboratoriais de pouca inventividade. Como as exigências de perfil aplicado são facilmente atendidas pelas práticas do “mercado”, o conceito institucional do curso sempre ficou em desvantagem naquilo que, em minha opinião, constitui-se no diferencial da formação universitária: a consistência do preparo intelectual do egresso. Não é uma simples casualidade que centenas de estudantes de Jornalismo foram buscar, em outras graduações cursadas simultaneamente ou como projeto para o futuro, o complemento que lhes faltava.
Essa comissão, que deve aprontar em breve uma nova proposta de diretrizes curriculares, tem uma boa oportunidade de indicar um caminho que permita a superação desse déficit crônico com o qual convivemos até agora. Arrisco dizer que ela estará cometendo um erro fatal se julgar que a dimensão humanística do futuro jornalista e sua habilidade em lidar com as questões culturais do seu tempo pode ceder espaço para um conceito instrumental e praticista do currículo.

O melhor do debate

Houve de tudo um pouco nas reações que se seguiram à decisão do STF em acabar com a exigência do diploma de jornalismo para o exercício da atividade. Até agora, tenho a impressão que o melhor caminho está sendo apontado pelos estudantes. Eles querem receber ensino de qualidade e já não se conformam em enfrentar cursos desprovidos de desafios intelectuais e experimentais que os capacite a encarar a profissão, com ou sem a exigência do diploma. Exclamações como a de uma estudante de São Paulo (“quero meu dinheiro de volta!”) certamente refletem mais o humor corrosivo – e inteligente – do pessoal do que uma decepção niilista com a situação criada pelo Supremo.
Mas a rede onde as manifestações continuam circulando é também farta em bobagens, lugares comuns e um sem-número de propostas que insistem em repetir a fórmula que até agora tem se mostrado fatal para as escolas. “Temos que entender o que o mercado quer”, diz tolamente uma delas. Ora, o mercado quer o que sempre quis: mão de obra adestrada. E é sintomático que a Globo já tenha vindo a público para tranquilizar os transeuntes – vai continuar procurando nos cursos de jornalismo os profissionais de que precisa. Naturalmente – é ela quem diz em outras palavras – com a possibilidade aberta agora de contratar formados em outras áreas  e que tenham competência para o jornalismo. 
Em meio a tudo isso, um conjunto de reflexões me parece ter marcado presença nas listas pela qualidade dos argumentos que apresentam, favoráveis e contrários à decisão do STF: trata-se do curto debate ocorrido a partir de um post de Ivana Bentes (UFRJ), seguido de duas outras mensagens – uma de Arlindo Machado (ECA/USP e PUC-SP), outra de Marcos Palácios (UFBA). Aponto esse material como um apelo à reflexão. Leia aqui.

Diploma: estudantes indicam o caminho

O dia de ontem e a madrugada de hoje foram momentos de extraordinária reflexão de todos os que estão envolvidos com o ensino do Jornalismo. O que me chamou a atenção, no entanto, não foram as vozes autorizadas da academia nem as propostas precipitadas de campanhas (algumas até com slogans prontos). O que me chamou a atenção nas diversas comunidades de que participo foi a maturidade manifestada pelos estudantes. Poucas foram aquelas despeitadas e rancorosas do tipo “vou trancar a matrícula” ou “vou fazer outro curso porque meu diploma não vale nada”. O que ocorreu foi uma verdadeira guerrilha de cobrança dos cursos, uma saudável expectativa de que, com a decisão do STF, as faculdades de Jornalismo encarem com seriedade e compromisso a responsabilidade que têm com seus alunos.

Eis aí um bom indicativo para a comissão que vai propor novas diretrizes curriculares para os cursos: afastar qualquer ilusão de que o perfil da formação “para o mercado” pode resolver o impasse surgido agora. O que os currículos precisam é a possibilidade de oferecer aos alunos perspectivas de rigorosa e densa formação intelectual ao lado da prática experimental que rompa o círculo vicioso do mimetismo que se estabeleceu com a mídia hegemônica.

Se o diploma não é mais exigido, o jornalismo continuará a exigir formação de qualidade. Penso que essa iniciativa deve ser recuperada pelos cursos específicos desde que permitam aos que os procuram a construção de horizontes avançados para a inovação conceitual e para a inovacão aplicada. A decisão tomada ontem pelo STF abre a discussão em dois sentidos: um é o dos efeitos que ela terá sobre a acomodada reserva de mercado que construiu posições imobilistas; outro é o do a inquietação sobre os desafios que a profissão passa a viver a partir de agora. Torço para que a comunidade universitária se preocupe com este último aspecto e deixe de lado, de uma vez por todas, o primeiro.

Leia as ponderações do Prof. Rogério Christofoletti, da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo, e conheça também as reflexões do jornalista Pedro Aguiar divulgadas na lista do Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo.

E mais: André Mazini e Leandro Fortes também escrevem sobre as consequências da decisão do STF.

STF extingue exigência do diploma para jornalistas

Por 8 a 1, o Supremo Tribunal Federal acabou hoje (17/06) com a obrigatoriedade do diploma para a profissão de jornalista. É cedo ainda para avaliar todas as consequências da decisão, mas algumas especulações podem e precisam ser feitas. A primeira diz respeito ao impacto que isso deve provocar, a médio prazo, nas centenas de cursos existentes pelo país afora, inúmeros deles sem a menor condição de funcionamento. Com a perda da reserva de mercado, as instituições que os mantém certamente verão minguar a procura por seus vestibulares. A longo prazo, muitos encerrarão suas atividades. Para que resistam será preciso melhorar, e muito, a qualidade do ensino que oferecem.

Essa talvez seja a consequência mais positiva da decisão do STF: um arejamento daquilo que é ensinado aos jovens que, na maioria dos casos por idealismo e romantismo, querem estudar jornalismo. No final das contas, será preciso oferecer seriedade teórica e experimental – e não meramente o que é puro mimetismo do mercado e retalhos de cultura geral – para que um formado em jornalismo, nessa nova condição, possa competir em igualdade de condições com egressos de cursos de áreas de conhecimento com maior densidade formadora.

A segunda consequência será um forte estreitamento do mercado de trabalho – já diminuto – em decorrência da extraordinária ampliação da oferta de mão de obra. Como a decisão do Supremo não estabeleceu qualquer contrapartida para o fim do diploma, neste momento nenhuma graduação será exigida para o exercício profissional. Também neste caso os efeitos podem ser desvastadores: já não há para o formado em cursos específicos a garantia de que o registro profissional possa lhe oferecer, mesmo de forma ilusória, a possibilidade de ocupar algum posto na área da imprensa. Se não estiver qualificado, com ou sem diploma, o candidato ao emprego de jornalista estará em dificuldades e provavelmente fora da disputa.

A decisão do STF levou em conta um argumento idiota: a exigência até hoje existente era uma ameaça à liberdade de expressão. Tomada a sério, também a propriedade privada dos meios de comunicação deveria ser cassada. O que esteve em jogo o tempo todo em que o assunto foi debatido na esfera pública foram duas ordens de problemas. De um lado, há mesmo na sociedade um surdo sentimento anti-regulatório que fragilizava a defesa da exigência do diploma e contra isso nenhum órgão corporativo dos jornalistas soube ou teve condições de se opor desde a fracassada tentativa de criação do Conselho Nacional de Jornalismo. De outro lado, uma forte pressão das empresas que, em maioria, sempre rejeitaram a regulamentação da profissão ou por motivos ideológicos ou por razões de mera ordem financeira.

Somados esses aspectos todos, fica então a pergunta: quais os efeitos do fim da exigência do diploma para a qualidade do jornalismo praticado no Brasil? Temo pelo pior. O jornalismo se estrutura a partir de um conjunto de conhecimentos aplicados específicos e de um outro conjunto de pressupostos de natureza deontológica, isto é, regramentos ético-profissionais próprios. É claro que o campo profissional já incorporou às suas práticas esses dois pilares, mas a desregulamentação vai permitir que o aprendizado disso se dê fora do âmbito acadêmico, o que significa deixá-lo nas mãos de determinações de natureza mercantil. Para a qualidade do jornalismo, a longo prazo, isso é um risco. Nem mesmo a hipótese de que proliferem cursos de pós-graduação profissionais ou especializações pode dar conta dessa lacuna que se abre para o futuro.

Vamos voltar ao tema…

Ensino de jornalismo: reflexão e experimentação

Terminei meu curso de Teoria de Jornalismo deste semestre com a análise de um texto de Alain Accardo publicado no Le Monde em 2000. O artigo discute duas ordens de condicionamento pelas quais os profissionais de imprensa passam no desenvolvimento de suas atividades: de um lado, as que são decorrentes dos veículos nos quais operam, em especial orientações de natureza editorial relativas às matérias de maior sensibilidade política; de outro, as que são conseqüência das demandas culturais do próprio público no qual os veículos encontram seu nicho de credibilidade e de mercado. Para Accardo, os jornalistas “não estão maquiavelicamente preocupados em manipular o público para aumentar o lucro dos acionistas das empresas em que trabalham”, mas vivem uma atuação que também através de uma série de condicionamentos quase imperceptíveis nem os deixa suspeitar que os fundamentos de sua profissão podem estar em xeque. O debate em torno do assunto, como era esperado, tomou direções diversas e penso mesmo que não chegamos a amarrar – e isso nem seria possível – qualquer conclusão categórica em torno dele.

O que me chamou a atenção, no entanto, foi a reflexão dos alunos sobre essa dinâmica que rejeita uma explicação simplista sobre o ofício que estão em vias de exercer. Foram inúmeros aqueles que, ao mesmo tempo em que se mostravam preocupados com os desafios que os espera, manifestavam uma firme determinação em aprofundar sua reflexão ao lado de um forte aprimoramento de suas habilidades técnicas. Em determinado momento, as discussões caminharam para as relações entre o curso e o chamado “mercado”. A dúvida é razoável: o que nos prepara melhor, perguntam, o aprendizado operacional ou o aprofundamento de natureza téorico-conceitual que nos permite compreender os dilemas da profissão?

Ponderei com os estudantes em torno do compromisso que a Universidade tem com dois pilares que justificam sua existência: a reflexão e a experimentação. Ela não estará apta a dar conta deles se imaginar que seu espaço é o da reprodução mimética das práticas empresariais e mercantis. Isso a levaria, como o demonstram inúmeros exemplos brasileiros, a se tornar um espaço de adestramento e de reiteração das questões apresentadas no texto de Accardo, inviabilizando a formação de profissionais que superem ou entendam as determinações que atuam sobre seu trabalho. Estou convencido de que só uma sólida formação teórica e o permanente exercício da inovação experimental é que asseguram a formação do bom jornalista.

Publicado em comunicação, currículo, ensino de jornalismo. Comentários desativados

Habermas

O dossiê da Cult deste mês é sobre Jürgen Habermas. A pretexto da comemoração dos 80 anos do filósofo, que a excelente matéria de Luiz Bernardo Leite Araujo chama, com razão, de “o filósofo vivo mais importante da Alemanha”, a revista recupera os passos mais importantes da trajetória intelectual do último remanescente da Escola de Frankfurt cuja presença no cenário do pensamento contemporâneo continua marcante. A rigor, Habermas só não é um marco decisivo nas Ciências Sociais e, em especial, na Comunicação, para quem não o leu. Os que se aventuraram a consultar em algum momento de seus estudos a obra com a qual é mais conhecido no Brasil, Mudança estrutural na esfera pública (1962), certamente enriqueceram seu entendimento sobre as determinações sócio-culturais dos processos comunicativos em geral e sobre a imprensa em particular.

Recentemente fui levado a retornar a Habermas em consequência de um denso debate que se seguiu à defesa de tese de Henrienne Barbosa no programa de pós-graduação da Umesp. Em determinado momento da explanação dos fundamentos teóricos de seu trabalho de doutorado, Henrienne referiu-se com muita propriedade ao diálogo que Habermas manteve, em 2005, com o então cardeal Joseph Ratzinger em torno da possibilidade de uma perspectiva comum a ser oferecida para o que então se identificava como “o derrotismo da razão moderna”. Para ambos, mas especialmente para o pensador frankfurtiano – que se define como um “ateu metódico” -, esse derrotismo decorre não apenas do “cientificismo positivista”, mas também de uma “modernização decarrilada” que obstaculiza o primado da Moral e da Justiça, ao lado das quais estariam tanto os ateus quanto os católicos (leia a íntegra da discussão entre Ratzinger e Habermas em la factoria)

Mais ou menos na linha do pensamento de Boaventura de Sousa Santos, o desafio desta etapa da modernidade estaria na contenção das perspectivas sedutoras do futuro e na dilatação das possibilidades humanizadoras do presente, de forma a ampliar os espaços da racionalidade tecnocientífica mas com base numa aproximação com a “consciência teológica das grandes religiões mundiais”. Esse diálogo entre duas correntes de pensamento aparentemente antagônicas dá a dimensão do intelectual público em que Habermas se transformou, que chama para si a responsabilidade de propor um reesclarecimento da modernidade contra o declínio do iluminismo. É preciso conhecê-lo em profundidade para que se aproveite de suas contribuições toda a proposta de ação que elas representam para a mudança do mundo contemporâneo.

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Barrar o interesse privado na Amazônia

Todos deveriam assitir o excelente documentário Corporation, de Mark Achbar, Jennifer Aboot e Joel Bakan. Mais do que a denúncia contundente sobre todo o conjunto de malefícios de natureza social que as empresas em escala global de atuação causam aos diversos países, é a decorrência da ação predatória sobre o meio ambiente do planeta que permanece como o resultado mais significativo do filme. A certa altura do documentário, o ex-CEO de uma megacorporação que atua na área da petroquímica fala sobre a existência de um imposto geracional que é sistematicamente reproduzido pelas grandes corporações, isto é, uma transferência, para o futuro, do ônus da deterioração ambiental praticada no presente. É esse mesmo executivo quem faz uma das metáforas mais belas do filme: a dificuldade em se perceber a queda progressiva quando o planador ainda está no alto. Ao se aproximar do solo é que a ilusão se desfaz e o choque do pouso se torna irreversível, ainda que suave. A relação com o tema ambiental é clara: a contundência da realidade, quando é iminente, não pode ser contornada.

O comentário vem a propósito da polêmica em torno da Medida Provisória que legaliza 67,4 milhões de hectares de terras públicas da União na Amazônia, para doação ou venda sem licitação, até o limite de 1.500 hectares. Na verdade, trata-se da oficialização de um saque aprovado pelo Senado com brechas que, segundo a ex-ministra Marina Silva (Leia aqui matéria da Folha Online sobre o assunto), podem abrir caminho para os que se apropriaram ilegalmente de terras e que, com a MP, poderiam ser anistiados. O que é visto como uma solução para o problema da legalização da posse da terra pode se tornar mais uma porteira aberta para o desmatamento da região. O problema, no entanto, me parece mais grave e de fundo: essa persistente transferência para as mãos dos interesses privados de setores de sensível interesse público atemporal (ou geracionais, para usar o conceito que retiro de Corporation), como é o caso do meio ambiente, do modelo de desenvolvimento industrial, da educação superior. O resultado, do ponto de vista da governabilidade, é sempre positivo, porque se trata da fixação de um convívio ameno e desprovido de grandes conflitos que o governo federal estabelece com os setores mais conservadores do Legislativo, entre eles os interesses ruralistas, e a sensação é que estamos todos num voo suave. No entanto, sob o aspecto das determinações de um projeto estratégico para o futuro, é o interesse público que está sendo comprometido. Não é o caso de inundarmos as caixas postais dos ministérios, do gabinete da presidência, dos parlamentares, com mensagens que repudiem a possibilidade de que a MP seja sancionada na íntegra por Lula?

O twitter chega à Tv

Essa aparente ingenuidade existencial que caracteriza as micropostagens nas páginas do twitter parece destinada a se tornar um processo interativo de largo alcance. Pelo menos é o que deixa entrever a informação dada por um dos fundadores da plataforma, Biz Stone, segundo a qual a empresa está prestes a fechar acordos com redes de televisão dos Estados Unidos para permitir a participação instantânea dos usuários do twitter na sua programação.

Na verdade, a iniciativa apenas retoma experiências que foram feitas durante a última campanha presidencial norte-americana quando programas de debate entre os principais candidatos estiveram abertos para a intervenção direta dos microblogueiros, condicionando o comportamento público de Obana e McCain e constrangendo-os a uma saravaida de perguntas que para muitos analistas teve peso fundamental nas escolhas dos eleitores.

Não se trata de uma situação inteiramente nova, já que a interatividade permitida pelas redes sociais tem sido peça importante nas campanhas políticas. O que há de diferente com a chegada do twitter é a sua instantaneidade quase que absoluta, como se pode ver nos diversos vídeos disponíveis no site do programa Hack The Debate.

Para os entusiastas da plataforma, seus milhões de usuários (nos Estados Unidos os acessos ao twitter chegaram em abril a 17 milhões, com um crescimento superior a 80% em relação a março) são a garantia de que a proposta de integração com a Tv poderia democratizar o veículo, isto é, acabar de vez com a programação hierárquica e fechada da televisão.

Evidentemente, tudo depende do conceito que se tem de “democratização”, mas é possível prever que os dias de inocência dos twitteiros (não tão inocentes assim se levarmos em conta o interesse comercial e simbólico que os microblogs já despertaram por aqui) estão próximos do fim. Leia outras fontes.

Microsoft bloqueia MSN em cinco países

Para aqueles que acreditam no caráter neutro das tecnologias da informação e em seu desapego a determinações de natureza política e econômica, a notícia é um bom motivo de reflexão: a Microsoft cortou o serviço do MSN em cinco países considerados como integrantes do Eixo do Mal, a designação que conduziu a política externa belicista do governo Bush. Desde a semana passada, os internautas de Cuba, Síria, Irã, Sudão e Coréia do Norte não conseguem acessar o programa de comunicação instantânea da empresa de Bill Gates. De acordo com o comunicado oficial do LiveSite.net, os serviços oferecidos àqueles países foram “descontinuados”, um eufemismo cada vez mais presente no vocabulário da economia global. Diz o texto: “Nós confirmamos a notícia divulgada pelo LiveSide. A Microsoft descontinuou os serviços de mensagem instantânea em certos países sujeitos às sanções dos EUA”.

A decisão da Microsoft de bloquear um programa gratuito com base em argumentos econômicos e políticos gerou estranheza e revolta entre blogueiros do mundo todo. Além disso, na contramão da alegada disposição de diálogo do governo Obama e da recuperação do discurso liberal prometido pela Casa Branca, a postura arbitrária da Microsoft causa tanta indignação quanto qualquer outra que viole a liberdade de expressão. Leia outras fontes.

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Novo jornalismo. Onde está o problema?

Dia desses assisti outra vez Capote, o belo filme de Bennett Miller sobre a vida do escritor norteamericano feito em 2005. Todo mundo que lida com o jornalismo conhece a história da criação da novela de não-ficção que se transformou num dos livros mais importantes da literatura contemporânea, A sangue frio; e não há muita coisa a ser acrescentada nem aos fatos que cercam a motivação do livro nem à maneira como Truman Capote se dispôs a narrar aquilo que ele próprio definiu como “o encontro entre duas Américas” ocorrido no crime cometido no Kansas em 1956. O que me parece ainda não suficientemente explicado e estudado são as condições gerais que permitiram o surgimento, a partir do livro, de uma nova configuração da narrativa jornalística capaz de motivar muito estudantes a abraçar a profissão e a encontrar nela um canal de expressão de sua individualidade, do seu jeito próprio de olhar e “denunciar” o mundo.

Pois lá no filme de Miller, numa cena rápida, quando Capote exercita seu imensurável ego e sua vaidade perante um grupo de participantes de uma festinha de intelectuais no Village de Nova York, um elemento me parece dilatar a compreensão da época: a música de fundo, uma execução de John Coltrane que moldura o ambiente cool em que tudo aquilo acontece. Onde está a relação entre uma coisa e outra? Está na fina percepção do diretor do filme em associar a nova expressividade musical da época – o blue modal que tomou conta da música norteamericana nos anos 50 e 60 – às também novas posturas estético-conceituais presentes em outros campos e que se caracterizaram pela psicologia da revelação e da subjetividade da arte moderna no pós-guerra. Tudo se passa como se uma sensação de esgotamento das formas convencionais das narrativas tomasse conta da cultura e de seus produtores, impulso que acabou atingindo também a literatura e o jornalismo.

Tenho insistido com os alunos que me procuram para discutir o lugar que o “novo jornalismo” – ou o “jornalismo literário” como alguns preferem – ocupa na cena contemporânea da produção da reportagem para que estudem esse contexto mais amplo de natureza cultural cuja lógica se situa fora do âmbito estrito do jornalismo. A idéia é permitir não a diluição do fenômeno que querem estudar no território ambivalente e escorregadio da cultura, mas assegurar que o entendimento dessas propostas que surgiram nos anos 50 e 60 – cuja influência nunca mais deixou de ser sentida – se dê paralelamente à compreensão de processos conceituais mais amplos dos quais a autoria da composição jornalística não se livrou.

Guardadas todas as devidas proporções, o estudo desses fenômenos é de uma forte atualidade porque eles parecem remeter, nos dias de hoje, à superação dessa verdadeira camisa de força criada pela presença dominante do jornalismo informativo como gênero que mais corresponde ao dinamismo da sociedade tecnológica. Não é um mero acaso que o interesse, portanto, se volte para o estudo e para a prática da produção textual de outra linhagem como se a comprovação de sua presença atestasse que nem tudo está perdido para o grande texto e para grande interpretação do repórter. É possível que seja isso mesmo, mas a fundamentação desse argumento precisa ser procurada também no jornalismo, claro, mas em especial nas tendências culturais contemporâneas, nas múltiplas tensões e perspectivas abertas pelas novas formas de expressão e na presença incontornável que a realidade e seus conflitos têm sobre as narrativas. É por isso que vale a pena retornar a Capote e à sua época.

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Crise da modernidade


A discussão sobre a crise da modernidade, interminável e complexa, ocupou boa parte de minhas aulas neste semestre. No final das contas, são tantas as variáveis conceituais que é difícil encontrar um texto-síntese que permita observar a pertinência da teoria com o cotidiano, com o mundo percebido por mim e pelos alunos. Pois veio de Marisa Nascimento, estudante da PUC-SP, uma contribuição que considero muito proveitosa: Zeitgeist, nas edições de 2008 e de 2007. Sugiro que respirem fundo e vejam as duas.

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Literatura e cinema


Muito bom o dossiê da Cult sobre a literatura norte-americana publicado no número 135 da revista. Entre os vários artigos, me chama a atenção o de Mauro Rosso sobre a eterna discussão motivada pela pergunta que dá título ao texto: “o filme é melhor que o livro?”. A polêmica, ainda que pareça bizantina, está assentada em duas ou três perspectivas de origens diferentes, todas importantes para entender a dimensão do problema.

A primeira, que, neste caso, além de primeira é primordial, diz respeito a uma longa tradição, nos Estados Unidos em especial, de transposição de obras literárias para o formato do filme, fenômeno do qual resultaram evidências bastante concretas: o cenário da ficção literária, que é multitemático e consistente em termos culturais e de mercado, tornou-se celeiro de diversos filmes (alguns deles clássicos, apontados por Rosso), invariavelmente pelas mesmas razões: a pertinência da abordagem de temas dada pela sensibilidade ou pelo oportunismo dos autores como substância que justificou a adaptação da obra. A receita do êxito de um livro não garantiu o sucesso da bilheteria, nem sempre; mas o caminho trilhado pelos adaptadores deixou a marca de uma quase hibridação entre os dois gêneros.

A outra perspectiva que alimenta a discussão é motivada pela própria reação do público e pelo efeito que tem sobre os estudos que o debate provoca no meio acadêmico. Rosso cita o professor da UCLA, Randal Johnson, para dar conta da questão. Segundo o pesquisador, a exigência de “fidelidade da adaptação cinematográfica à obra literária originária pode resultar em julgamentos superficiais que frequentemente valorizam a obra literária em detrimento da adaptação, sem uma reflexão mais profunda”. Vem dessa concepção mimética o julgamento do público: o filme é bom se conseguiu manter inalterados os elementos formais de um livro. Julgamento injusto, como se vê – a fidelidade estrita à obra literária não é e nunca foi garantia da igual densidade conceitual com que o tema é tratado em sua origem, ao contrário. Certamente por isso é que Stanley Kubrick, lembrado no artigo, afirmava que “livro é livro, filme é filme”.

O último aspecto é o que me parece mais determinante no estudo do problema. A obra literária e o filme nos põem diante de duas linguagens diferentes marcadas pela natureza estruturante que o suporte técnico tem nas possibilidades narrativas que oferecem a uma e a outro. Penso que Rosso não deu a essa questão a profundidade que ela merece, embora seu artigo faça referência apropriada a um de seus elementos: a natureza estática da literatura e o caráter dinâmico do cinema, dimensões responsáveis por processos diferentes de produção de sentidos pelo público. Eu acrescentaria à discussão um outro elemento: o da menor abertura que a mediação tecnológica da obra cinematográfica oferece ao espectador em contraposição à maior abertura que a obra literária permite ao leitor.

A polêmica não é nova e já foi posta em debate especialmente por Umberto Eco, mas não é demais lembrar que o conceito de fidelidade esbarra nessa diferença estrutural existente entre os dois gêneros, de onde se deduz que a idéia de transposição literal de um para outro – do livro para o filme – inevitavelmente conduziria a uma inadequação de natureza cognitiva (como de fato conduz quando isso é tentado) que frustraria (e frustra) o público. Quer dizer, o cinema está comprometido com processos narrativos que advém de suas características e não se obriga a contar as histórias no ritmo e nos limites lineares do texto literário; apela para uma instância de percepção do espectador de origem diversa do apelo que é feito pelo livro.

Nada disso, no entanto, é irreconciliável e os roteiristas estão aí nesse papel fundamental que é o de levar em conta essas diferenças conceituais, mas a comparação que não incorpora as dimensões características da literatura e do cinema esbarra na relatividade da resposta objetiva à saudável provocação de Rosso: se o filme é melhor que o livro? Talvez sim, talvez não…

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Google não quer comprar jornais. Alívio?

O principal executivo do Google, Eric Schmidt, disse em Londres que a empresa não vai comprar veículos impressos não só porque os preços pedidos pelos jornais à venda são altos demais; também porque a maioria deles está endividada. Segundo Schmidt, o Google “evita cruzar a linha existente entre a tecnologia e a produção de conteúdo”. Essas informações foram dadas pelo Financial Times.

A notícia, se confirmada, pode aprofundar ainda mais a crise que os impressos atravessam já que o Google, embora não queira os jornais, tem em mãos o principal e mais acessado mecanismo de busca de notícias da internet, o Google News. Tudo se passa como um intenso processo de transferência de lucros de um setor – que gera conteúdos jornalísticos e perde receitas publicitárias – para outro – que distribui notícias e amplia sua presença no mundo da propaganda comercial. A extensão desse conflito, que afeta todo o sistema internacional de produção noticiosa, escapa dos meros mecanismos de controle do destino da propriedade autoral disponível nos sites dos jornais impressos; diz respeito a um complexo de natureza cultural que deixa os veículos tradicionais numa situação financeira insustentável, a exemplo do que já ocorre com o The New York Times.

Os editores, de seu lado, protestam e alegam que se não fosse a natureza da sua (cara) produção o Google News sequer existiria. Os fatos, no entanto, são irreversíveis em vista dos novos hábitos de leitura que se expandem na mesma proporção da universalização do acesso à internet. O que pode estar em jogo, no caso dos jornais impressos, é tanto a sua própria sobrevivência como empresas capitalistas quanto o conceito do jornalismo que produzem.

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Educação e mau gosto

Não quero discutir o conteúdo do livro paradidático distribuído para as 3as. séries das escolas públicas, nem quero saber das cifras que envolveram a operação. Quero apenas ponderar sobre o extraordinário mau gosto da “obra”, o caos semântico e semiótico que ela traduz, o horror das imagens. Disse o governador que o caso é mais grave que o anterior, quando os estudantes foram informados sobre 2 Paraguais e nenhum Equador num material de Geografia. Não sei se o caso é mais grave, mas certamente é muito mais feio.

Não consigo imaginar como esse embrutecimento estético e conceitual pode servir ao ensino.

Em tempo: o organizador do livro dá a sua versão dos fatos no blog dos quadrinhos, de Paulo Ramos (Leia aqui).

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"A arte moderna é uma questão de fé"

O jornal La Nación, de Buenos Aires, transcreve na edição de hoje entrevista que a socióloga canadense Sarah Thornton deu ao The Daily Telegraph sobre a natureza aparentemente incompreensível da arte contemporânea. Segundo ela, a fruição das obras modernas exige um “ato de fé” por parte do observador, tantas são hoje as distinções culturais sobre o que é bonito, feio, cool ou ultrapassado. Para Thornton, que também é colaboradora da revista The New Yorker, a volatilidade dessa hierarquia de valores sobre as obras acaba por transferir para a perspectiva do observador o julgamento que as legitima acima das determinações do mercado.

Frente a qualquer instalação contemporânea, que deixa inseguros até mesmo os especialistas, a socióloga diz que sua categorização como arte ou não-arte depende fundamentalmente de uma instância desprovida de objetividade. “A arte não é ciência. Explora o mundo através do irracional e assim, o que pode ser ridículo ou incompreensível para uns pode ser também um caminho interessante de sensibilidade para outros”, diz Thornton. No final, o observador está diante de apelos feitos à sua crença ou ao seu credo, o que transformaria o entendimento e a fruição de seus sentidos num ato de fé. Para a socióloga, “artistas individuais ou galerias… podem oferecer um sentimento de comunidade não muito diferente daquele oferecido por uma igreja. Existem muitos paralelos entre arte e religião. As duas, no melhor dos casos, estão em busca do significado, da beleza e da epifania na vida”, afirma.

Thornton adota uma postura indiferente em relação aos códigos herméticos da crítica especializada, afirmando que essa “aparente seriedade” não é importante, exceto no meio literário ou nos círculos universitários que se alimentam de “gestos retóricos”. Desde os anos 60 as universidades se converteram no principal instrumento legitimador da carreira de um artista. “Essa cadeia de instâncias consagradoras, que se traduz em prestígio, verbas, prêmios, ainda que resulte em compensações de natureza material, não é linear e frequentemente busca no sentimento do público seus elementos de sobrevivência”, conclui.

O último livro de Sarah Thornton, Sete dias no mundo da arte, ainda não foi lançado no Brasil, mas figura entre os 10 melhores livros de arte nas listas do New York Times, do Sunday Times e do Independent.

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Rede de intrigas… e de maldades

As cenas do contrangimento público sofrido por uma criança no programa de Sílvio Santos – já pela segunda vez – dizem quase tudo sobre a tv aberta no Brasil. O presidente do Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente do Rio ficou chocado com as imagens que viu. — “Ela aparece em situação de sofrimento, denotando ameaça a seus direitos fundamentais, especialmente a integridade psíquica — disse Carlos Nicodemos, membro da OAB/RJ: — Gostaria de saber que fundamentação o juiz usou para autorizar uma criança de 6 anos a trabalhar”, concluiu. Quem assistir à gravação que circula no youtube vai poder observar a rápida hesitação inicial e a complacência posterior do auditório com a insensibilidade do animador.

O episódio faz lembrar o filme Belíssima (1951), de Luchino Visconti, no momento em que Ana Magnani, no papel de Madalena Cecconi, lamenta ter exposto a filha às engrenagens da cultura de massa.

Jornalismo cultural inofensivo

Os estudos sobre o jornalismo cultural cobram hoje, antes de tudo, uma resenha das lacunas conceituais sobre o gênero, e devem procurar oferecer a ele a abrangência necessária em direção à sua dupla dimensão: a pauta das demandas estético-conceituais construídas no processo de criação cultural e a identificação dos elementos contra-hegemônicos dessa mesma demanda.

Isso permitiria que a cobertura jornalística na área da cultura fosse vista além de sua dinâmica factual e positiva (meramente informativa e contaminada pelo deslumbramento do espetáculo). Estamos diante de articulações teóricas que não são reveladas pelo sentido do noticiário, da mesma forma que o jornalismo esportivo não dá conta da dinâmica do esporte e o jornalismo econômico não dá conta da economia. No caso do jornalismo cultural, essa cobertura desprovida de verticalidade analítica aproxima-o do neo-mecenato em que se constitui a “reponsabilidade social”, fato que acaba condicionando o debate acadêmico, inclusive fragilizando-o frente às pressões apontadas por Alberto Dines em artigo recente do Observatório da Imprensa (Leia aqui).

A pesquisa acadêmica precisa, portanto, superar esses obstáculos e caminhar para uma revisão rigorosa do próprio conceito de jornalismo cultural.

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O performativo no jornalismo cultural: uma organização discursiva diferenciada

Em artigo produzido em co-autoria com a Profa. Dra. Elizabeth Moraes Gonçalves, minha colega do programa de pós-graduação em Comunicação da UMESP, apresento uma reflexão sobre o discurso do jornalismo cultural do Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo, na cobertura da FLIP- Feira Literária Internacional de Paraty/2008. Discutimos como se dá a organização discursiva das matérias com o objetivo de identificar o aspecto performativo do jornalismo, tanto por sua própria presença no veículo quanto pela posição ocupada pelos jornalistas da publicação no cenário da crítica cultural. Avaliadas as condições de produção, remete-se ao “contrato de comunicação” estabelecido entre o suporte e seus leitores. Parte-se de uma revisão de literatura dos conceitos fundamentais de linguagem e discurso para uma aplicação ao jornalismo cultural. O artigo foi publicado no último número da revista Famecos, do programa de pós-graduação em Comunicação Social da PUC do Rio Grande do Sul. Acesse o texto integral aqui.

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Dimensão e prática do jornalismo cultural

A revista Fronteiras, do programa de pós-graduação em Comunicação da UNISINOS, em seu número de janeiro-abril deste ano, publica artigo em que analiso as dimensões e as práticas discursivas do jornalismo cultural. Nesse texto, trabalho com a hipótese de que o gênero articula duas variáveis igualmente importantes: as demandas de natureza estético-conceitual e ético-políticas, de um lado; de outro, as determinações da cultura de massa voltadas para o entretenimento. A tensão decorrente da dinâmica dessas duas variáveis é associada ao caráter performativo que as matérias dos suplementos, dos cadernos e das publicações especializadas têm junto ao público. Acesse o texto integral aqui.

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Reforma do ensino médio começa de cabeça para baixo

Posso estar enganado, mas parece que o MEC vai cometer um grave equívoco no processo da reforma curricular do ensino médio: ela está sendo pensada a partir da lógica das mudanças nos vestibulares e não a partir das deficiências na formação do estudante secundarista. Como o ENEM é que será usado como critério de seleção para as universidades, o ensino terá que se adaptar ao exame e não o exame ao ensino. Esta não é a primeira vez que isso ocorre. Em diversos e sucessivos momentos a idéia sobre o quê exatamente o estudante deve saber para estar capacitado a ingressar num curso superior sofreu esse desvio conceitual com todas as consequências negativas para a sua formação.

O caso mais gritante é o próprio ENEM, a julgar pela forma como as escolas de ensino médio, em especial as particulares, acabam se tornando obsessivas no adestramento dos alunos para o exame. No final das contas, o puro marketing decorrente disso é que acabou prevalecendo sobre a efetiva qualidade daquilo que é ensinado. A reforma curricular, portanto, repete a máxima segundo a qual é preciso mudar para que tudo, na essência, continue do mesmo jeito.

O mais grave, no entanto, nem me parece ser uma mudança que se fundamenta nessa inversão de valores – porque é de valores que estamos falando quando o princípio é o da instrumentalização do ensino. O mais grave, segundo consigo perceber, é que essa adequação do maior (o currículo) ao menor (o ENEM), para que seja possível, exige uma formulação pedagógica que justifique a violência que se vai praticar nos conteúdos do que deve ser ensinado. Refiro-me aqui a essa idéia de “ensino modular e temático, inter, trans e muldisciplinar” com a qual o novo currículo passa a ser concebido e que se sobrepõe às disciplinas convencionais. As experiências relatadas até agora – pelo menos aquelas que me chegam ao conhecimento – dão conta da verdadeira ilusão pedagógica em que essa proposta se constitui. Invariavelmente, o que ocorreu naquelas escolas que se aventuraram à prática da modulação e da transdisciplinaridade (ou qualquer nome que isso tenha) foi um estado de dispersão conceitual e intelectual que acabou por fragilizar a formação do estudante em todas as áreas, ainda que a retórica em sua defesa enfatize o saber positivo construído sobre inumeráveis tópicos (ou temas) em torno dos quais os professores trabalharam. Mas foi só isso. Avaliados em profundidade, os alunos do ensino médio que foram submetidos a isso demonstraram que conheciam muito pouca coisa dos fundamentos dos vários campos científicos com os quais trabalharam. E o que é pior, os professores sempre souberam disso.

A idéia de um currículo temático e modular no ensino médio tende a reproduzir esse simulacro de educação. Que seja posta em prática nas pontas do processo – o ensino fundamental e o ensino superior – é razoável, pois que se trata de aprendizado de questões relacionais. Mas que seja pensada no momento do aprendizado dos conceitos fundamentais dos campos do saber, me parece equivocado e a consequência pode muito bem ser aquela que os educadores sérios lutam para evitar: o rebaixamento geral na formação do aluno. No fim das contas, teríamos um paradoxo: um novo processo de seleção para o ensino superior fundado numa mais moderna racionalidade administrativa, mas construído sobre um enorme vazio intelectual dos estudantes.

Convém saber, portanto, por que a USP já se antecipou: não aceita as mudanças propostas pelo MEC.

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Augusto Boal (1931-2009)

A morte de Augusto Boal neste fim de semana me fez lembrar do impacto que suas teses sobre o teatro tiveram sobre meus alunos nos anos 80. Eu ministrava um curso de História da Cultura para estudantes de jornalismo e um dos tópicos do programa previa uma análise sobre duas correntes em que se debatia a dramaturgia brasileira no início do processo de modernização acelerada pela qual o país passou nas décadas de 40 e 50. A coisa toda não era difícil de ser explicada mas exigia um grau acurado de interpretação pois que também nas correntes estéticas refletia-se o paradoxo da nossa contemporaneidade, isto é, a convivência tensionada entre perspectivas elitistas e formais (nos estratos onde a renda se concentra) e visões mais generosas da sociedade manifestadas por intelectuais que se viam como seus porta-vozes (olhos postos onde a renda não se concentra).

No caso do teatro, essa dicotomia que nos acompanha nos últimos 60 anos traduzia-se em duas propostas: a do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e a do Teatro de Arena. A primeira, estetizante e sobriamente européia, era marcada pela ênfase no bom gosto e no requinte, disposta com isso a seduzir a burguesia paulista, seu principal mercado. Raramente o TBC encenou algum autor nacional e agora mesmo eu me recordo de apenas um nome que teve esse privilégio: Abílio Pereira de Almeida. Já o Teatro de Arena era visto nas nossas aulas como herdeiro de alguma tradição iconoclasta do modernismo brasileiro, mas principalmente como um reduto de atores e diretores que se aglutinavam por motivos ideológicos, com simpatia por autores com perfil nacionalista e politicamente mais comprometidos com as mudanças sociais cuja discussão a conjuntura do populismo estimulava.

Faço um parênteses: nunca houve essa assimetria esquemática entre “autores nacionais” e “autores estrangeiros” que minha lembrança de Augusto Boal faz crer. O que havia, e ainda há, eram perspectivas dramatúrgicas mais universais e mais particularistas, complexo que tanto podia enfeixar autores estrangeiros quanto autores brasileiros. A distinção, a rigor, se fazia em torno do núcleo sobre o qual o enredo da peça se desenvolvia – se mais ou menos próximo da realidade transcendente do Homem e das contradições sociais concretas.

Pois bem, foi nesse Teatro de Arena que Augusto Boal surgiu com toda a sua garra e sensibilidade quando o grupo decidiu encenar a peça de Gianfrancesco Guarnieri, Eles não usam Black-tie. Trata-se de um momento divisório na história da cultura brasileira uma vez que o texto de Guarnieri, sob a perspectiva de Boal, permitiu que o Arena recuperasse uma linha dramatúrgica que vinha de Nelson Rodrigues, acrescentando a ela uma disposição de revelar a realidade brasileira em toda a sua dramaticidade e extensão.

Não foi pouca coisa, segundo entendo. Para Boal e para toda a geração de atores e autores que se reuniam em torno dele, a experiência do Arena dava uma indicação primordial para o próprio teatro nacional: seu compromisso com o conflito social brasileiro. Neste caso, Eles não usam Black-tie, ao lado do experimentalismo cênico que o Arena permitia, trazia para o centro do palco o operariado e seus conflitos políticos radicais.

Dizem os biógrafos de Boal que foi com essa perspectiva que ele salvou o Teatro de Arena e o próprio teatro brasileiro. Encenações de Oduvaldo Vianna Filho, Roberto Freire, Sartre, Chico de Assis tiveram o condão de energizar a cena teatral e abrir o caminho para todas as experiências que se sucederam. Augusto Boal praticamente participou de todas elas ou esteve indiretamente envolvido com elas pela inspiração que permitiu com sua sensibilidade dramatúrgica e poética. Uma carreira que envolveu as iniciativas do Oficina, o Grupo Opinião, a Primeira Feira Paulista de Opinião, o Teatro do Oprimido, de maneira que não é possível entender o teatro brasileiro contemporâneo sem entender a trajetória de Boal. Um exemplo quase único de um artista que soube associar a reflexão teórico-experimental à sua prática.

Citado na enciclopédia Itaú Cultural, Yan Michalski diz que “até o golpe de 1964, a atuação de Augusto Boal à frente do Teatro de Arena foi decisiva para forjar o perfil dos mais importantes passos que o teatro brasileiro deu na virada entre as décadas de 1950 e 1960. Uma privilegiada combinação entre profundos conhecimentos especializados e uma visão progressista da função social do teatro conferiu-lhe, nessa fase, uma destacada posição de liderança. Entre o golpe e a sua saída para o exílio, essa liderança transferiu-se para o campo da resistência contra o arbítrio, e foi exercida com coragem e determinação. No exílio, reciclando a sua ação para um terreno intermediário entre teatro e pedagogia, ele lançou teses e métodos que encontraram significativa receptividade pelo mundo afora, e fizeram dele o homem de teatro brasileiro mais conhecido e respeitado fora do seu país”. Boal foi nomeado pela UNESCO, em 2009, embaixador mundial do teatro.

A ditadura fez com Boal a mesma coisa que fez com muitos outros expoentes do pensamento radical brasileiro: obrigou-os a deixar o país, quando não os humilhou por aqui mesmo. Mas nem isso desanimou o criador do Teatro dos Oprimidos. Tão logo retornou do exílio, mostrou a mesma energia. Mas essa história é para uma outra vez.

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Gay Talese de volta…

O Estadão deste domingo traz uma excelente entrevista com Gay Talese, um dos principais nomes do jornalismo contemporâneo. Mais do que Tom Wolfe, Talese é considerado o guru do que se convencionou chamar de new journalism e seu último livro – Vida de Escritor (Cia das Letras) – está sendo lançado nesta semana.

A entrevista, também disponível em áudio com legendas em português no portal do Estadão, dá conta de dois temas que ocupam parte das discussões nos cursos de jornalismo. O primeiro é o da recuperação da reportagem como narrativa pessoal do jornalista, uma espécie de perspectiva impressionista dos fatos investigados, na fronteira com a expressividade literária. Talese tornou-se uma das referências desse estilo e toda a sua produção, já editada em livros no Brasil, ficou marcada por essas características. Na minha opinião, A mulher do Próximo (Cia das Letras), uma investigação sobre a revolução sexual ocorrida nos Estados Unidos nos anos 50 e 60, é talvez a sua obra mais brilhante.

O segundo tema da entrevista é a crise que atinge os jornais tradicionais. Uma matéria da Veja da semana passada, para que se fique apenas num exemplo, dá conta de que o New York Times, só no primeiro trimestre deste ano, teve um prejuízo de 74,5 milhões de dólares, resultado da mistura fatal da crise econômica com o impacto que a internet provoca nos veículos impressos (leia aqui). Quando o assunto é o Times, Talese fala com a autoridade de quem não só trabalhou nos anos de ouro do jornal mas também como o repórter que escreveu a sua história (O reino e o poder, Cia das Letras). Segundo ele, o NYT está pagando pelo erro de não ter preservado sua identidade ao disponibilizar seu conteúdo gratuitamente pela internet, explicação da qual se desdobra um tema polêmico: não há espaço para o jornalismo de qualidade na corrida que marca a produção noticiosa na rede. Em outras palavras: se quiserem sobreviver, os jornais impressos terão que reafirmar suas características, evitando dissolvê-las no universo das tecnologias virtuais da informação jornalística.

O retorno de Talese com Vida de Escritor e a própria repercussão de sua entrevista podem intensificar a discussão em torno desses dois temas.

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Tendências históricas do jornalismo brasileiro

Resenha publicada na revista Galáxia, do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, número 16, dezembro de 2008
História do jornalismo no Brasil, de Richard Romancini e Cláudia Lago. Florianópolis: Editora Insular, 2007

Os autores do livro têm razão quando afirmam na introdução do trabalho que os estudos sobre a história do jornalismo brasileiro vivem um paradoxo: são poucas as boas obras sobre o cenário mais amplo em que se desenvolveu a imprensa nacional, mas são muitas as pesquisas em torno de momentos específicos do jornalismo brasileiro, em especial aquelas dissertações e teses que são produzidas nos cursos de pós-graduação. Onde está o paradoxo? É possível supor que o volume já considerável de trabalhos monográficos acabasse resultando num esforço de síntese historiográfica e os leitores pudessem dispor de uma visão mais ampla das conjunturas que nortearam o desenvolvimento da imprensa brasileira, mas não é isso o que ocorre. É com essa intenção que o livro foi escrito.

Trata-se de contribuição valiosa que certamente vai preencher uma lacuna da qual todos se ressentem, em especial os professores e pesquisadores universitários que lidam com o tema, e o leitor interessado em compreender as várias dimensões do jornalismo brasileiro, suas relações com o Estado, com a economia, com a dinâmica sócio-cultural, com os padrões de referência em torno dos quais o campo profissional se articula e se desenvolve. O esforço se justifica: a imprensa brasileira, à semelhança de algumas outras que se surgiram na América Latina, é uma das principais protagonistas da vida política nacional, e não é segredo para ninguém que nos dias atuais chega mesmo a se configurar como um partido informal, tal é o peso que joga junto à sociedade civil e às instituições do Estado.

O trabalho de Richard Romancini e de Cláudia Lago procura ir às origens desse processo periodizando-o segundo as mutações da natureza tecno-operacional da imprensa, vinculando-as também a transformações institucionais mais amplas, fato que permite ao estudioso deixar de lado, desde logo, qualquer tentativa de explicar o fenômeno por si só como muitos tratados funcionalistas ainda insistem em fazer. O resultado é esclarecedor porque afirmações tais como “a imprensa é fruto do capitalismo” ou “o Estado Populista manipulou a imprensa”, por exemplo, fartamente utilizadas como simplificadoras de contextos históricos bastante complexos em outras obras, ganham aqui uma fundamentação consistente ainda que sintética e didaticamente apresentada.

O ponto alto do livro é o capítulo que analisa “a redemocratização e as tendências do jornalismo no Brasil”, quando o esvaziamento da densidade crítica que muitos veículos mostraram durante a ditadura militar é atribuído, em parte, “à potencial oligopolização do setor” midiático no âmbito do qual a imprensa tem quer ser vista. Parece residir na transição conservadora para a democracia a perda da substância crítica e contundente que a imprensa – em especial a “grande” imprensa – sustentou em outros períodos. As explicações para isso não são simples e os autores em nenhum momento recorrem a uma análise meramente episódica do fenômeno. Ao contrário: situam-no no contexto da modernização empresarial e tecnológica que os jornais passaram a viver paralelamente à abertura política, condição que indica a perda da substância informativa diante da complexa realidade social que o quadro econômico brasileiro gerou. Se cresceram como complexos empresariais, os jornais e outros veículos podem ter, ao mesmo tempo, reduzido sua dimensão pública.

Há, contudo, um problema de origem no trabalho de Romancini e Lago: metodologicamente, os autores operam com dois conceitos que precisam ser tratados de forma distinta – o de “imprensa” e o de “jornalismo”. Essa talvez seja uma questão acadêmica que não retira do livro suas qualidades descritivas e analíticas, mas é preciso de alguma forma estabelecer uma distinção rigorosa entre um e outro, reservando-se para o primeiro uma compreensão mais atinada às estruturas organizacionais e propriamente econômicas dos jornais. Para o segundo – o de “jornalismo” -, um entendimento de sua natureza narrativa e de seus vínculos com a produção discursiva dos profissionais da imprensa. Mas esse é um outro desafio que o livro não se propõe enfrentar, embora abra caminho para essa diferenciação.

Por dois motivos História do jornalismo no Brasil chega em boa hora. Primeiro, porque está sendo lançado no momento em que parece consolidada a tendência da construção de abordagens teóricas específicas sobre o campo, quando emergem no cenário universitário linhas de pesquisa que preservam sua identidade epistemológica, com todas as conseqüências metodológicas decorrentes disso. Segundo, porque a proliferação dos cursos de graduação em jornalismo precisa estar ancorada em boa bibliografia, antes que continue se dando de forma ainda mais desqualificada. Nos dois casos, a compreensão do processo histórico do objeto é ferramenta indispensável para pesquisadores e para professores.

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