Lições de uma entrevista

Everardo Maciel foi entrevistado na manhã de hoje por Anchieta Filho, da Jovem Pan. Maciel foi secretário da Receita Federal entre 1995 e 2001 e sua opinião sobre a suposta crise criada com a demissão de funcionários do órgão vai na contramão das manchetes dos principais jornais do país: para ele, estamos diante de um “factóide” criado com objetivos políticos e a Receita ganha em transparência com o afastamento dos demissionários. Ouça aqui a entrevista e perceba as lições que ela oferece para a leitura da imprensa. Luis Nassif, por exemplo, ficou indignado com a manipulação do mesmo episódio na TV (leia a matéria publicada na Carta Maior)

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Gripe suína reitera nova representação da escola particular

Se alguém ainda não tinha percebido isso em situações anteriores, o episódio do adiamento do reinício das aulas em razão das ameaças do vírus H1N1 serviu também para não deixar dúvidas sobre a mudança que a representação simbólica da escola privada sofreu no país. A versão antiga do colégio particular era próxima do conjunto de extensões culturais da classe média: o médico, a igreja, a liderança comunitária. Essas instâncias da sociabilidade eram vistas como redutos irrestritos da confiança familiar: acreditava-se nelas de forma categórica e nem se imaginava que sua orientação pudesse ocultar qualquer intenção que não fosse o genérico bem-estar da esfera privada. É claro que essas relações fundadas em fortes laços pessoais ocultavam inúmeras dissimulações de poder e de domínio, mas penso que no cotidiano esse era o caminho através do qual um certo conformismo encontrava soluções para a ordem natural das coisas: a educação, a saúde, a paz do espírito e até mesmo a orientação política tinham nesses polos de influência respostas de credibilidade indiscutível.

A modernização capitalista colocou tudo isso abaixo e a escola é uma das instituições que paga o preço da mudança: a privatização do ensino foi tão aguda, a noção da educação como serviço ficou tão arraigada na vida brasileira que o que antes era uma relação de confiança transformou-se em relação mercantil cujo núcleo ideológico – como de resto em todas as outras dimensões da existência social – é a troca de equivalentes, isto é, tudo deve corresponder ao preço pago. No final das contas, a escola é uma operadora com a qual se tem um contrato, e essa relação contratual é sistematicamente medida não mais pela confiança, mas pela suposição de que se o atendimento ao cliente não for integral e satisfatório, algo deve ser feito pelo ressarcimento de quem se julga enganado, neste caso o aluno ou os seus responsáveis.

Agora mesmo, quando as escolas foram “obrigadas” a suspender o reinício das aulas, nem foi preciso muito tempo para que os atores envolvidos no problema se manifestassem: os pais foram logo questionando o pagamento dos dias parados e querem ou uma coisa ou outra – ou o seu desconto em valores ou a reposição integral das aulas; as escolas põem em dúvida se devem pagar seus professores e acenam para eles com calendários draconianos de reposição das aulas, obviamente para que não tenham que mexer no próprio bolso, mas continuam indignadas com a possibilidade de que a emergência tenha se tornado “férias suplementares” para os mestres; os professores, de seu lado, dispostos a cumprir com o seu ofício, se veem no meio desse tiroteio e, como é natural, defendem seus direitos.

Pode parecer exagero, mas há uma farsa montada em torno disso tudo porque já se sabe que o estrago no semestre letivo está feito e que nada conseguirá restabelecer a sua normalidade. Conteúdos programáticos, projetos de ensino, eficiência didático-pedagógica, tudo isso foi deixado para trás porque os discursos articulados em torno desses princípios são vistos com descrédito (ou com desconfiança, o que é mais grave): o importante é o valor; melhor, o preço, porque valor é outra coisa. O resultado é o que aí está: um problema de saúde, tratado em meio a trapalhadas de todos os lados, acabou tendo um aspecto positivo: revelou – como se outros fatos já não o tivessem demonstrado – que a escola pode ter perdido sua credibilidade como instituição educacional, ainda que encontre soluções que deixem sua clientela satisfeita.

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Adiamento das aulas: um erro atrás do outro

Não fosse pelas implicações sanitárias que tem e o episódio do adiamento do reinício das aulas teria tudo para se transformar numa dessas comédias de erros que bem poderia ser aproveitada pelo Saramago. Até agora, não há uma única justificativa consensual para a medida e provavelmente vamos chegar à data limite desse recesso (dia 17?) sem qualquer certeza de que o caos provocado nas escolas tenha valido a pena.

O que me parece estar por trás dessa trapalhada é o corre-corre político que anuncia a disputa eleitoral de 2010, porque evidentemente ninguém quer a batata quente da gripe suína nas mãos, muito menos os estados governados pelo PSDB. Medidas de urgência, bem ao sabor da maneira como a mídia as trata, fazem bem para o eleitorado e, pelo menos em São Paulo, todas foram tomadas na contra-mão das mensagens “tranquilizadoras” emitidas pelo Ministério da Saúde. O resultado é o que se vê: ao lado do bate-boca travado na imprensa entre as autoridades do setor, a população desorientada e a desordem instalada no funcionamento do semestre letivo.

Infelizmente, em situações desse tipo, quem paga o pato são os professores e as professoras que estão diante de uma equação difícil de resolver: tiveram, à sua revelia, duas semanas de recesso, caso não tenham sido convocados para cumprir seus horários normais de aula mesmo sem os alunos. Mas, em qualquer dos dois casos, começam a perceber que o preço cobrado por isso vai sair caro: a extensão das aulas por um período indefinido, em alguns casos com o sacrifício, desde já, de sábados inteiros de reposição. Como muitos docentes (em São Paulo o percentual é de 40% nas escolas particulares) lecionam em mais de um lugar, qualquer calendário é impraticável.

Até onde consigo perceber, a única solução é a redução da carga letiva do semestre – para que a precipitação que provocou tudo isso não acabe desembocando numa desordem didático-pedagógica e operacional generalizada.

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Microsoft bloqueia MSN em cinco países

Para aqueles que acreditam no caráter neutro das tecnologias da informação e em seu desapego a determinações de natureza política e econômica, a notícia é um bom motivo de reflexão: a Microsoft cortou o serviço do MSN em cinco países considerados como integrantes do Eixo do Mal, a designação que conduziu a política externa belicista do governo Bush. Desde a semana passada, os internautas de Cuba, Síria, Irã, Sudão e Coréia do Norte não conseguem acessar o programa de comunicação instantânea da empresa de Bill Gates. De acordo com o comunicado oficial do LiveSite.net, os serviços oferecidos àqueles países foram “descontinuados”, um eufemismo cada vez mais presente no vocabulário da economia global. Diz o texto: “Nós confirmamos a notícia divulgada pelo LiveSide. A Microsoft descontinuou os serviços de mensagem instantânea em certos países sujeitos às sanções dos EUA”.

A decisão da Microsoft de bloquear um programa gratuito com base em argumentos econômicos e políticos gerou estranheza e revolta entre blogueiros do mundo todo. Além disso, na contramão da alegada disposição de diálogo do governo Obama e da recuperação do discurso liberal prometido pela Casa Branca, a postura arbitrária da Microsoft causa tanta indignação quanto qualquer outra que viole a liberdade de expressão. Leia outras fontes.

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Google não quer comprar jornais. Alívio?

O principal executivo do Google, Eric Schmidt, disse em Londres que a empresa não vai comprar veículos impressos não só porque os preços pedidos pelos jornais à venda são altos demais; também porque a maioria deles está endividada. Segundo Schmidt, o Google “evita cruzar a linha existente entre a tecnologia e a produção de conteúdo”. Essas informações foram dadas pelo Financial Times.

A notícia, se confirmada, pode aprofundar ainda mais a crise que os impressos atravessam já que o Google, embora não queira os jornais, tem em mãos o principal e mais acessado mecanismo de busca de notícias da internet, o Google News. Tudo se passa como um intenso processo de transferência de lucros de um setor – que gera conteúdos jornalísticos e perde receitas publicitárias – para outro – que distribui notícias e amplia sua presença no mundo da propaganda comercial. A extensão desse conflito, que afeta todo o sistema internacional de produção noticiosa, escapa dos meros mecanismos de controle do destino da propriedade autoral disponível nos sites dos jornais impressos; diz respeito a um complexo de natureza cultural que deixa os veículos tradicionais numa situação financeira insustentável, a exemplo do que já ocorre com o The New York Times.

Os editores, de seu lado, protestam e alegam que se não fosse a natureza da sua (cara) produção o Google News sequer existiria. Os fatos, no entanto, são irreversíveis em vista dos novos hábitos de leitura que se expandem na mesma proporção da universalização do acesso à internet. O que pode estar em jogo, no caso dos jornais impressos, é tanto a sua própria sobrevivência como empresas capitalistas quanto o conceito do jornalismo que produzem.

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Educação e mau gosto

Não quero discutir o conteúdo do livro paradidático distribuído para as 3as. séries das escolas públicas, nem quero saber das cifras que envolveram a operação. Quero apenas ponderar sobre o extraordinário mau gosto da “obra”, o caos semântico e semiótico que ela traduz, o horror das imagens. Disse o governador que o caso é mais grave que o anterior, quando os estudantes foram informados sobre 2 Paraguais e nenhum Equador num material de Geografia. Não sei se o caso é mais grave, mas certamente é muito mais feio.

Não consigo imaginar como esse embrutecimento estético e conceitual pode servir ao ensino.

Em tempo: o organizador do livro dá a sua versão dos fatos no blog dos quadrinhos, de Paulo Ramos (Leia aqui).

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Reforma do ensino médio começa de cabeça para baixo

Posso estar enganado, mas parece que o MEC vai cometer um grave equívoco no processo da reforma curricular do ensino médio: ela está sendo pensada a partir da lógica das mudanças nos vestibulares e não a partir das deficiências na formação do estudante secundarista. Como o ENEM é que será usado como critério de seleção para as universidades, o ensino terá que se adaptar ao exame e não o exame ao ensino. Esta não é a primeira vez que isso ocorre. Em diversos e sucessivos momentos a idéia sobre o quê exatamente o estudante deve saber para estar capacitado a ingressar num curso superior sofreu esse desvio conceitual com todas as consequências negativas para a sua formação.

O caso mais gritante é o próprio ENEM, a julgar pela forma como as escolas de ensino médio, em especial as particulares, acabam se tornando obsessivas no adestramento dos alunos para o exame. No final das contas, o puro marketing decorrente disso é que acabou prevalecendo sobre a efetiva qualidade daquilo que é ensinado. A reforma curricular, portanto, repete a máxima segundo a qual é preciso mudar para que tudo, na essência, continue do mesmo jeito.

O mais grave, no entanto, nem me parece ser uma mudança que se fundamenta nessa inversão de valores – porque é de valores que estamos falando quando o princípio é o da instrumentalização do ensino. O mais grave, segundo consigo perceber, é que essa adequação do maior (o currículo) ao menor (o ENEM), para que seja possível, exige uma formulação pedagógica que justifique a violência que se vai praticar nos conteúdos do que deve ser ensinado. Refiro-me aqui a essa idéia de “ensino modular e temático, inter, trans e muldisciplinar” com a qual o novo currículo passa a ser concebido e que se sobrepõe às disciplinas convencionais. As experiências relatadas até agora – pelo menos aquelas que me chegam ao conhecimento – dão conta da verdadeira ilusão pedagógica em que essa proposta se constitui. Invariavelmente, o que ocorreu naquelas escolas que se aventuraram à prática da modulação e da transdisciplinaridade (ou qualquer nome que isso tenha) foi um estado de dispersão conceitual e intelectual que acabou por fragilizar a formação do estudante em todas as áreas, ainda que a retórica em sua defesa enfatize o saber positivo construído sobre inumeráveis tópicos (ou temas) em torno dos quais os professores trabalharam. Mas foi só isso. Avaliados em profundidade, os alunos do ensino médio que foram submetidos a isso demonstraram que conheciam muito pouca coisa dos fundamentos dos vários campos científicos com os quais trabalharam. E o que é pior, os professores sempre souberam disso.

A idéia de um currículo temático e modular no ensino médio tende a reproduzir esse simulacro de educação. Que seja posta em prática nas pontas do processo – o ensino fundamental e o ensino superior – é razoável, pois que se trata de aprendizado de questões relacionais. Mas que seja pensada no momento do aprendizado dos conceitos fundamentais dos campos do saber, me parece equivocado e a consequência pode muito bem ser aquela que os educadores sérios lutam para evitar: o rebaixamento geral na formação do aluno. No fim das contas, teríamos um paradoxo: um novo processo de seleção para o ensino superior fundado numa mais moderna racionalidade administrativa, mas construído sobre um enorme vazio intelectual dos estudantes.

Convém saber, portanto, por que a USP já se antecipou: não aceita as mudanças propostas pelo MEC.

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