Posso estar enganado, mas parece que o MEC vai cometer um grave equívoco no processo da reforma curricular do ensino médio: ela está sendo pensada a partir da lógica das mudanças nos vestibulares e não a partir das deficiências na formação do estudante secundarista. Como o ENEM é que será usado como critério de seleção para as universidades, o ensino terá que se adaptar ao exame e não o exame ao ensino. Esta não é a primeira vez que isso ocorre. Em diversos e sucessivos momentos a idéia sobre o quê exatamente o estudante deve saber para estar capacitado a ingressar num curso superior sofreu esse desvio conceitual com todas as consequências negativas para a sua formação.
O caso mais gritante é o próprio ENEM, a julgar pela forma como as escolas de ensino médio, em especial as particulares, acabam se tornando obsessivas no adestramento dos alunos para o exame. No final das contas, o puro marketing decorrente disso é que acabou prevalecendo sobre a efetiva qualidade daquilo que é ensinado. A reforma curricular, portanto, repete a máxima segundo a qual é preciso mudar para que tudo, na essência, continue do mesmo jeito.
O mais grave, no entanto, nem me parece ser uma mudança que se fundamenta nessa inversão de valores – porque é de valores que estamos falando quando o princípio é o da instrumentalização do ensino. O mais grave, segundo consigo perceber, é que essa adequação do maior (o currículo) ao menor (o ENEM), para que seja possível, exige uma formulação pedagógica que justifique a violência que se vai praticar nos conteúdos do que deve ser ensinado. Refiro-me aqui a essa idéia de “ensino modular e temático, inter, trans e muldisciplinar” com a qual o novo currículo passa a ser concebido e que se sobrepõe às disciplinas convencionais. As experiências relatadas até agora – pelo menos aquelas que me chegam ao conhecimento – dão conta da verdadeira ilusão pedagógica em que essa proposta se constitui. Invariavelmente, o que ocorreu naquelas escolas que se aventuraram à prática da modulação e da transdisciplinaridade (ou qualquer nome que isso tenha) foi um estado de dispersão conceitual e intelectual que acabou por fragilizar a formação do estudante em todas as áreas, ainda que a retórica em sua defesa enfatize o saber positivo construído sobre inumeráveis tópicos (ou temas) em torno dos quais os professores trabalharam. Mas foi só isso. Avaliados em profundidade, os alunos do ensino médio que foram submetidos a isso demonstraram que conheciam muito pouca coisa dos fundamentos dos vários campos científicos com os quais trabalharam. E o que é pior, os professores sempre souberam disso.
A idéia de um currículo temático e modular no ensino médio tende a reproduzir esse simulacro de educação. Que seja posta em prática nas pontas do processo – o ensino fundamental e o ensino superior – é razoável, pois que se trata de aprendizado de questões relacionais. Mas que seja pensada no momento do aprendizado dos conceitos fundamentais dos campos do saber, me parece equivocado e a consequência pode muito bem ser aquela que os educadores sérios lutam para evitar: o rebaixamento geral na formação do aluno. No fim das contas, teríamos um paradoxo: um novo processo de seleção para o ensino superior fundado numa mais moderna racionalidade administrativa, mas construído sobre um enorme vazio intelectual dos estudantes.
Convém saber, portanto, por que a USP já se antecipou: não aceita as mudanças propostas pelo MEC.