O melhor do debate

Houve de tudo um pouco nas reações que se seguiram à decisão do STF em acabar com a exigência do diploma de jornalismo para o exercício da atividade. Até agora, tenho a impressão que o melhor caminho está sendo apontado pelos estudantes. Eles querem receber ensino de qualidade e já não se conformam em enfrentar cursos desprovidos de desafios intelectuais e experimentais que os capacite a encarar a profissão, com ou sem a exigência do diploma. Exclamações como a de uma estudante de São Paulo (“quero meu dinheiro de volta!”) certamente refletem mais o humor corrosivo – e inteligente – do pessoal do que uma decepção niilista com a situação criada pelo Supremo.
Mas a rede onde as manifestações continuam circulando é também farta em bobagens, lugares comuns e um sem-número de propostas que insistem em repetir a fórmula que até agora tem se mostrado fatal para as escolas. “Temos que entender o que o mercado quer”, diz tolamente uma delas. Ora, o mercado quer o que sempre quis: mão de obra adestrada. E é sintomático que a Globo já tenha vindo a público para tranquilizar os transeuntes – vai continuar procurando nos cursos de jornalismo os profissionais de que precisa. Naturalmente – é ela quem diz em outras palavras – com a possibilidade aberta agora de contratar formados em outras áreas  e que tenham competência para o jornalismo. 
Em meio a tudo isso, um conjunto de reflexões me parece ter marcado presença nas listas pela qualidade dos argumentos que apresentam, favoráveis e contrários à decisão do STF: trata-se do curto debate ocorrido a partir de um post de Ivana Bentes (UFRJ), seguido de duas outras mensagens – uma de Arlindo Machado (ECA/USP e PUC-SP), outra de Marcos Palácios (UFBA). Aponto esse material como um apelo à reflexão. Leia aqui.

Diploma: estudantes indicam o caminho

O dia de ontem e a madrugada de hoje foram momentos de extraordinária reflexão de todos os que estão envolvidos com o ensino do Jornalismo. O que me chamou a atenção, no entanto, não foram as vozes autorizadas da academia nem as propostas precipitadas de campanhas (algumas até com slogans prontos). O que me chamou a atenção nas diversas comunidades de que participo foi a maturidade manifestada pelos estudantes. Poucas foram aquelas despeitadas e rancorosas do tipo “vou trancar a matrícula” ou “vou fazer outro curso porque meu diploma não vale nada”. O que ocorreu foi uma verdadeira guerrilha de cobrança dos cursos, uma saudável expectativa de que, com a decisão do STF, as faculdades de Jornalismo encarem com seriedade e compromisso a responsabilidade que têm com seus alunos.

Eis aí um bom indicativo para a comissão que vai propor novas diretrizes curriculares para os cursos: afastar qualquer ilusão de que o perfil da formação “para o mercado” pode resolver o impasse surgido agora. O que os currículos precisam é a possibilidade de oferecer aos alunos perspectivas de rigorosa e densa formação intelectual ao lado da prática experimental que rompa o círculo vicioso do mimetismo que se estabeleceu com a mídia hegemônica.

Se o diploma não é mais exigido, o jornalismo continuará a exigir formação de qualidade. Penso que essa iniciativa deve ser recuperada pelos cursos específicos desde que permitam aos que os procuram a construção de horizontes avançados para a inovação conceitual e para a inovacão aplicada. A decisão tomada ontem pelo STF abre a discussão em dois sentidos: um é o dos efeitos que ela terá sobre a acomodada reserva de mercado que construiu posições imobilistas; outro é o do a inquietação sobre os desafios que a profissão passa a viver a partir de agora. Torço para que a comunidade universitária se preocupe com este último aspecto e deixe de lado, de uma vez por todas, o primeiro.

Leia as ponderações do Prof. Rogério Christofoletti, da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo, e conheça também as reflexões do jornalista Pedro Aguiar divulgadas na lista do Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo.

E mais: André Mazini e Leandro Fortes também escrevem sobre as consequências da decisão do STF.

STF extingue exigência do diploma para jornalistas

Por 8 a 1, o Supremo Tribunal Federal acabou hoje (17/06) com a obrigatoriedade do diploma para a profissão de jornalista. É cedo ainda para avaliar todas as consequências da decisão, mas algumas especulações podem e precisam ser feitas. A primeira diz respeito ao impacto que isso deve provocar, a médio prazo, nas centenas de cursos existentes pelo país afora, inúmeros deles sem a menor condição de funcionamento. Com a perda da reserva de mercado, as instituições que os mantém certamente verão minguar a procura por seus vestibulares. A longo prazo, muitos encerrarão suas atividades. Para que resistam será preciso melhorar, e muito, a qualidade do ensino que oferecem.

Essa talvez seja a consequência mais positiva da decisão do STF: um arejamento daquilo que é ensinado aos jovens que, na maioria dos casos por idealismo e romantismo, querem estudar jornalismo. No final das contas, será preciso oferecer seriedade teórica e experimental – e não meramente o que é puro mimetismo do mercado e retalhos de cultura geral – para que um formado em jornalismo, nessa nova condição, possa competir em igualdade de condições com egressos de cursos de áreas de conhecimento com maior densidade formadora.

A segunda consequência será um forte estreitamento do mercado de trabalho – já diminuto – em decorrência da extraordinária ampliação da oferta de mão de obra. Como a decisão do Supremo não estabeleceu qualquer contrapartida para o fim do diploma, neste momento nenhuma graduação será exigida para o exercício profissional. Também neste caso os efeitos podem ser desvastadores: já não há para o formado em cursos específicos a garantia de que o registro profissional possa lhe oferecer, mesmo de forma ilusória, a possibilidade de ocupar algum posto na área da imprensa. Se não estiver qualificado, com ou sem diploma, o candidato ao emprego de jornalista estará em dificuldades e provavelmente fora da disputa.

A decisão do STF levou em conta um argumento idiota: a exigência até hoje existente era uma ameaça à liberdade de expressão. Tomada a sério, também a propriedade privada dos meios de comunicação deveria ser cassada. O que esteve em jogo o tempo todo em que o assunto foi debatido na esfera pública foram duas ordens de problemas. De um lado, há mesmo na sociedade um surdo sentimento anti-regulatório que fragilizava a defesa da exigência do diploma e contra isso nenhum órgão corporativo dos jornalistas soube ou teve condições de se opor desde a fracassada tentativa de criação do Conselho Nacional de Jornalismo. De outro lado, uma forte pressão das empresas que, em maioria, sempre rejeitaram a regulamentação da profissão ou por motivos ideológicos ou por razões de mera ordem financeira.

Somados esses aspectos todos, fica então a pergunta: quais os efeitos do fim da exigência do diploma para a qualidade do jornalismo praticado no Brasil? Temo pelo pior. O jornalismo se estrutura a partir de um conjunto de conhecimentos aplicados específicos e de um outro conjunto de pressupostos de natureza deontológica, isto é, regramentos ético-profissionais próprios. É claro que o campo profissional já incorporou às suas práticas esses dois pilares, mas a desregulamentação vai permitir que o aprendizado disso se dê fora do âmbito acadêmico, o que significa deixá-lo nas mãos de determinações de natureza mercantil. Para a qualidade do jornalismo, a longo prazo, isso é um risco. Nem mesmo a hipótese de que proliferem cursos de pós-graduação profissionais ou especializações pode dar conta dessa lacuna que se abre para o futuro.

Vamos voltar ao tema…

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