Debate contesta revisão da estrutura dos cursos de Comunicação e das diretrizes de Jornalismo

A redefinição dos cursos de Comunicação a partir do desmembramento das atuais habilitações e a proposta de novas diretrizes curriculares para Jornalismo apresentada recentemente ao MEC pela Comissão de Especialistas acendeu o debate na Compós. A partir de uma mensagem postada na lista por Ivana Bentes, na qual a professora da ECO/UFRJ adverte para a possibilidade de que as mudanças previstas contrariem a concepção transdisciplinar do ensino de graduação com a segmentação das formações profissionais, duas manifestações posteriores indicam que muita água vai rolar até que o Conselho Nacional de Educação delibere sobre o assunto. A primeira veio de Afonso Albuquerque; a segunda, de Erik Felinto.

Para Albuquerque, “não são apenas algumas mudanças de nome e de perfil que ameaçam uma concepção mais abrangente do ensino da comunicação. É o espírito da reforma como um todo. E acho que a ameaça não se limita à graduação. A médio prazo o objetivo do movimento é alterar também a lógica da pós-graduação, impondo também a ela um modelo fragmentário”.

Diz o professor da Federal Fluminense que “não se trata de especulação vazia. Basta observar o documento da Comissão de Especialistas – sempre me espanta a falta de transparência e de consulta pública com que o MEC define quem é ‘especialista’ – responsável pela elaboração das Diretrizes Nacionais para o Curso de Jornalismo”. Com base no trecho da proposta das diretrizes para jornalismo no qual a comissão recomenda ao ministério a ênfase na formação pós-graduada em jornalismo de professores da habilitação, Afonso Albuquerque adverte que “afora o absurdo evidente de uma comissão criada para normatizar cursos de graduação em jornalismo extrapolar a sua autoridade para também normatizar a pós-graduação – o que significa simplesmente passar por cima da Compós como forum de debate sobre o assunto – fica evidente uma atitude preconceituosa em relação à formação teórica em Comunicação. Como esta é a matéria prima básica do nosso modelo de pós, dá para se ver o tamanho da ameaça”.

“De resto, a reforma da graduação é de um fantástico contra-senso”, diz Albuquerque: “Para começar, ela mistura alhos e bugalhos. Jornalismo, Publicidade e RP são campos de atuação profissional, Rádio, TV e Internet são tecnologias da Comunicação, que têm interfaces evidentes com Cinema e Audiovisual – alguém conhece alguma televisão que não veicule produtos audiovisuais? – e multimídia é… Alguém ainda se lembra o que é multimídia?

“Em segundo lugar, prossegue, ela ignora inteiramente a realidade do mercado de trabalho deste século: a convergência das linguagens e dos meios, dos usuários ativos, das redes sociais e assim por diante. O mercado de trabalho real, que emprega uma grande (e crescente) parcela dos alunos que saem da faculdade hoje”. Afonso Albuquerque acha “bizzaro sugerir que ninguém trabalha com ‘comunicação’, mas com ‘jornalismo’, ‘publicidade’ e etc. É justamente o contrário. As pessoas hoje trabalham com comunicação em um sentido integrado, muito mais do que dentro de fronteiras habilitacionais específicas. É público e notório que o mercado de trabalho das organizações jornalísticas stricto sensu está em declínio. Provavelmente, o setor que mais emprega jornalistas no Brasil é a assessoria de imprensa. E só no Brasil assessor de imprensa é jornalista… Os profissionais ‘puro-sangue’ ambicionados por este modelo são, hoje, espécies em extinção. Simplesmente não há mais lugar para eles no mercado de trabalho.

“De onde vem tanta cegueira”, pergunta Albuquerque. “Provavelmente – acrescenta ele – da repulsa mal disfarçada (se é que em algum momento disfarçada) em relação à formação teórica em Comunicação. A formação prática só permite olhar para o passado. Reproduzir modelos estabelecidos. E quando as coisas mudam, e estes modelos entram em crise? Neste caso, o que entra em jogo é a capacidade de diagnosticar a situação, avaliar os elementos envolvidos e propor sugestões originais”.

“A minha sensação, conclui o ex-presidente da Compós, é que o verdadeiro objetivo da reforma é deter a evolução da formação superior em comunicação. Evolução inevitável, dado que as coisas estão mudando, e estão mudando rapidamente. Querer parar a história a golpes de burocracia é algo que nunca dá certo”.

Para Erik Felinto, que também foi presidente da Compós, as mudanças que estão sendo propostas criam paradoxos graves: “… mais preocupante ainda que as diretrizes do MEC é a filosofia (se é que assim podemos chamá-la) que está na base da coisa”. E acrescenta: “É um verdadeiro absurdo que ‘especialistas’ considerem ser impossível pensar sobre qualquer prática humana sem que a tenhamos primeiramente exercido. Nesse caso, ninguém poderia tornar-se criminologista ou fazer sociologia da violência sem ter cometido um crime. Preciso primeiro matar alguém para depois poder refletir sobre as motivações e métodos de Raskolnikov. No domínio dos estudos literários, igualmente, não passaria pela cabeça de ninguém julgar que os escritores seriam necessariamente os melhores teóricos da literatura apenas pelo fato de escreverem literatura (ainda que até possa ser o caso acidentalmente).

“Isso é divertido, admite Felinto, “mas é o de menos”. “O que me parece realmente assustador é a concepção de comunicação (bem como da produção do conhecimento e da formação universitária) que estrutura essa reforma. Em primeiro lugar, essa concepção essencializa realidades histórica e culturalmente determinadas, como o jornalismo ou o cinema, transformando-as em idéias platônicas. Para garantir sua subsistência nas feições que adquiriram historicamente no mundo moderno, mesmo face às violentas transformações tecnológicas, sociais, econômicas e culturais dos últimos anos, é preciso elevá-las ao “topos ouranos” da imobilidade temporal e fetichizá-las da maneira mais rasteira possível.

“Em segundo lugar, acrescenta, criam-se mundos estanques (agora, numa versão bastarda das mônadas leibnizianas), nos quais os campos, as práticas, as teorias são completamente incapazes de se comunicar. Em relação ao cinema, especificamente, o sôfrego desejo de desligá-lo a todo custo da comunicação ou da rubrica “audiovisual” revela um extremo desconhecimento da história da mídia e suas dinâmicas particulares. A mais recente historiografia da mídia vem demonstrando à exaustão que nunca existiu algo como um puro discurso ou forma cultural cinematográfica. Ainda que o cinema pertencesse somente a uma esfera da ‘pura arte’ (como alguns gostariam), sem qualquer relação com questões comunicacionais, teríamos que perguntar de que noção (também historicamente condicionada) de arte estamos falando”.

No caso do jornalismo, a idéia de um “suposto domínio cognitivo da sua especificidade” entra em choque o “cenário em que os impactos tecnológicos das novas mídias – e aqui aceito sem nenhum embaraço a surrada acusação de “determinismo tecnológico” – põem em cheque uma vasta série de hábitos cognitivos e formas tradicionais de produzir e consumir informação”.

Para Felinto, a proposta de reforma curricular apresentada pela comissão “parece conformar-se à certa tendência de pensamento tecnicista e disciplinar que vem assolando o campo da comunicação aqui em nossas terras tropicais. Enquanto no resto do mundo centros de pesquisa e pesquisadores tornam-se cada vez menos apegados a rótulos disciplinares e a objetos nitidamente recortados, por aqui ainda encontra bastante ressonância a fábula dos três porquinhos que se trancam em sua casa enquanto o lobo assopra lá fora. Nesse sentido, o exemplo da literatura comparada, que não teve pudor algum em declarar a dissolução de seu objeto tradicional (e com isso buscar novos horizontes precisamente nos estudos de mídia) é significativo e inspirador. Na UERJ, impressiona-me a quantidade de estudantes que se graduam em jornalismo para depois cursar Relações Públicas ou Publicidade (e vice-versa). Isso porque eles percebem, ao contrário do que insinuam as diretrizes, que o campo profissional da comunicação encontra-se cada vez mais esgarçado e o mercado se interessa precisamente por aqueles que conseguem transitar entre diferentes horizontes práticos e universos de referência cultural.

“Na verdade, conclui o professor da UERJ, se a comunicação já não fosse tão fragmentada quanto é, talvez eles não tivessem que gastar tantos anos fazendo outros cursos. Afonso termina dizendo que ‘parar a história a golpes de burocracia é algo que nunca dá certo’. Eu acrescentaria, lembrando Zizek, que a burocracia é uma das mais representativas encarnações do super-ego: ao mesmo tempo assustadoramente autoritária e totalmente risível em seu incansável afã prescritivo”.

O debate está aberto… Pretendo acompanhar os desdobramentos da discussão e postar no blog as idéias principais apresentadas nas listas.

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Diretrizes curriculares para os cursos de Jornalismo

O Ministro da Educação recebeu ontem (18/09) o documento que propõe novas diretrizes curriculares para os cursos de Jornalismo. O estudo, elaborado por comissão de especialistas designada por Fernando Haddad, deve agora ser submetido à apreciação do CNE. Caso as diretrizes sejam aprovadas na sua concepção geral – ainda que sofram ajustes na tramitação da Câmara de Educação Superior do órgão – a proposta passa a valer como orientação para todo o país e deverá provocar mudanças significativas na orientação e na estrutura didático-pedagógica dos cursos.

A primeira e mais polêmica mudança será a transformação do Jornalismo em curso específico, não mais concebido como uma habilitação da Comunicação Social. Em comentário anterior feito neste blog (leia aqui), ponderei sobre a dupla dimensão que essa idéia poderia adquirir caso viesse a ser apresentada: de um lado, a possibilidade de que inspirasse uma aversão à reflexão teórica em torno de processos que explicam o campo ontológico do Jornalismo; de outro, a perspectiva de que, uma vez autônomos, os cursos pudessem trabalhar com maior ênfase na especificidade conceitual do campo profissional. O documento entregue ao MEC mostra que seus autores foram cuidadosos no tratamento dessa questão, não apenas porque acenam com o respeito à Área do Conhecimento em que o Jornalismo se insere, mas também em razão dos fundamentos com os quais justificam sua proposta.

Os fatos parecem dar razão à comissão de especialistas, especialmente porque as novas diretrizes emergem como um roteiro que procura resgatar a identidade da formação profissional, fortemente abalada pela extinção da obrigatoriedade do diploma determinada pelo STF. Se levarmos em conta a qualidade da sustentação teórica que os autores do documento apresentado a Fernando Haddad dão aos argumentos pela formação específica, penso que as novas diretrizes representam um avanço significativo na formação dos jornalistas, mas não só por isso: também pela coerência e consistência com que apresentam os eixos em tornos dos quais as estruturas dos cursos devem gravitar.

Evidentemente, agora que se tornou público e depois da expectativa com que os envolvidos no assunto aguardavam o estudo, o resultado final da comissão entra no território aberto da polêmica, mais do que foi permitido pelas audiências públicas e pelas discussões que sua gestação provocaram nas várias listas (leia aqui, por exemplo, o documento do Prof. Fábio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo, contrário às diretrizes sugeridas pela comissão).

Particularmente, estou convencido de que a proposta apresentada ao MEC caminha na mesma direção de um consenso que vai se criando depois da decisão do STF: é preciso fortalecer a qualidade e a identidade dos cursos como instrumento legitimado de formação dos jornalistas. A dúvida sobre a viabilidade dessa construção fica por conta da competência e da seriedade com que professores e escolas darão conta do desafio.

Jornalismo versus Comunicação

Recebo, em lista, email do Prof. Edson Spenthof, presidente do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo. O conteúdo da mensagem pretende “tranquilizar” os destinatários para a possibilidade de que, com as novas diretrizes curriculares, as habilitações em jornalismo ganhem autonomia e se desvinculem organicamente dos cursos de Comunicação, tal como já aconteceu com Cinema. Muito saudável a iniciativa do Prof. Edson, mas os argumentos que ele usa me deixaram ainda mais intranquilo, especialmente os exemplos tomados da área das ciências biomédicas. Quer dizer, então, que dentistas não estudam Anatomia como os médicos porque os cursos de odontologia se desvecilharam dos cursos de medicina?

Mais grave ainda é a afirmação de que a criação dos cursos de Comunicação obedeceu a um projeto de dominação imperialista e conservador que envolveu a Unesco e o Ciespal, “no contexto da Guerra Fria e anos de chumbo no Brasil”. A história é conhecida e resulta de um ensaio do Prof. Eduardo Meditsch, da Universidade Federal de Santa Catarina, para o qual, no entanto, faltam evidências e elementos empíricos que comprovem a hipótese. Como argumento de natureza acadêmica, posto da forma como o presidente do FNPJ o faz, desrespeita e ofende quem o lê.

Jornalismo é Comunicação e não há malabarismo teórico, filosófico ou epistemológico que consiga contornar isso.

No entanto, e particularmente, não tenho nada contra a autonomia do Jornalismo em relação à Comunicação, preservada a vinculação ontológica entre os processos que se intercambiam entre os dois. Mas acho que a formação específica teria muito a ganhar com a desvinculação. Contudo, as razões que justificam uma mudança dessa ordem exigem mais profundidade, muito mais do que o arrazoado do Prof. Edson. Pode ser uma impressão – e torço para que seja -, mas esse “resgate” do Jornalismo anda meio contaminado por um ressentimento anti-acadêmico que pode ter efeitos empobrecedores para a filosofia norteadora das diretrizes curriculares.

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Precipitação dos cursos deixa medíocre o ensino de jornalismo

O fim da exigência do diploma decidido pelo STF e a ameaça de que tenham sua existência posta em dúvida pela qualidade do ensino que oferecem está levando alguns cursos de jornalismo a reformas curriculares precipitadas que podem agravar ainda mais a sua mediocridade. Evidentemente, há as exceções de sempre representadas pelas faculdades que têm projeto pedagógico definido e consistente e que procuram oferecer aos alunos formação universitária sólida. Mas, a julgar pela matéria publicada na Folha desta semana, uma boa parte dos cursos está promovendo mudanças meramente cosméticas, num afobamento que pode trazer como resultado um distanciamento ainda maior entre os desafios do jornalismo e a qualificação dos alunos para enfrentá-los.

Penso que esse corre-corre curricular é provocado por uma identificação equivocada do cerne da questão: não se trata de preparar o estudante de jornalismo para o mercado, obrigando-o a um praticismo para o qual as empresas estão muito melhor preparadas. Trata-se de dotá-lo de instrumentos que lhe permitam refletir sobre os impasses de natureza experimental e teórico-conceitual da profissão. Nesse sentido, a história, contada não sem um certo ar de satisfação pelo coordenador de um desses cursos, segundo a qual os alunos do 1o. ano vão trabalhar com blogs e com o twitter, dá bem uma idéia do caráter acanhado da concepção que alimenta parte das reformulações no ensino de jornalismo que ainda estão por vir. Melhor será aguardar a definição das novas diretrizes curriculares, na hipótese de que a comissão encarregada de elaborar a proposta que será enviada ao MEC não tenha caido na mesma tentação.

Em tempo: boa a iniciativa da Cásper Líbero em oferecer “a estudantes de graduação ou portadores de diploma de nível superior (de qualquer área do conhecimento)” o curso A arte de fazer jornalismo. A proposta, muito bem estruturada e sob responsabilidade de profissionais qualificados que atuam na imprensa e na universidade, é (até onde sei) a primeira investida de uma instituição na nova realidade criada com o fim da exigência do diploma. As reações de ira e de reprovação manifestadas nas listas de discussão da área não contribuem em nada para adensar o debate em torno das novas perspectivas do ensino de jornalismo.

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A hora da verdade para os cursos de Jornalismo

Em meio à profusão de manifestações que se seguiram à decisão do STF de acabar com a obrigatoriedade do diploma específico para o exercício da profissão, vai ficando claro que as atenções começam a se voltar para os cursos: afinal, se tivessem conseguido vincular sua existência de maneira imprescindível ao exercício do jornalismo, é pouco provável que sua exigência pudesse ser questionada por quem quer que fosse. A deliberação do Supremo, por conta disso, contou (e ainda conta) com um importante aliado: a opinião generalizada, até mesmo entre os próprios jornalistas, de que os cursos são desnecessários, ou seja, não é preciso cursar Jornalismo para ser jornalista. Isso é verdade ou estamos diante de um argumento fundado na vulgaridade do senso comum e na lógica que inspirou o combate que as empresas moveram contra a obrigatoriedade do diploma?
A resposta é difícil, claro, mas penso que, esfriados os ânimos, é preciso apontar para aquela que considero a fragilidade maior dos cursos de Jornalismo: a baixa densidade reflexiva e cultural que eles oferecem em contraposição à banalidade das experiências práticas exigidas dos alunos. Com exceção de algumas poucas estruturas curriculares que conheço (não mais que 2 ou 3), até agora os cursos devem sua montagem a um conjunto dispersivo de disciplinas teóricas que raramente se articulam nos eixos dos campos do conhecimento e a um outro conjunto de exercícios laboratoriais de pouca inventividade. Como as exigências de perfil aplicado são facilmente atendidas pelas práticas do “mercado”, o conceito institucional do curso sempre ficou em desvantagem naquilo que, em minha opinião, constitui-se no diferencial da formação universitária: a consistência do preparo intelectual do egresso. Não é uma simples casualidade que centenas de estudantes de Jornalismo foram buscar, em outras graduações cursadas simultaneamente ou como projeto para o futuro, o complemento que lhes faltava.
Essa comissão, que deve aprontar em breve uma nova proposta de diretrizes curriculares, tem uma boa oportunidade de indicar um caminho que permita a superação desse déficit crônico com o qual convivemos até agora. Arrisco dizer que ela estará cometendo um erro fatal se julgar que a dimensão humanística do futuro jornalista e sua habilidade em lidar com as questões culturais do seu tempo pode ceder espaço para um conceito instrumental e praticista do currículo.

O melhor do debate

Houve de tudo um pouco nas reações que se seguiram à decisão do STF em acabar com a exigência do diploma de jornalismo para o exercício da atividade. Até agora, tenho a impressão que o melhor caminho está sendo apontado pelos estudantes. Eles querem receber ensino de qualidade e já não se conformam em enfrentar cursos desprovidos de desafios intelectuais e experimentais que os capacite a encarar a profissão, com ou sem a exigência do diploma. Exclamações como a de uma estudante de São Paulo (“quero meu dinheiro de volta!”) certamente refletem mais o humor corrosivo – e inteligente – do pessoal do que uma decepção niilista com a situação criada pelo Supremo.
Mas a rede onde as manifestações continuam circulando é também farta em bobagens, lugares comuns e um sem-número de propostas que insistem em repetir a fórmula que até agora tem se mostrado fatal para as escolas. “Temos que entender o que o mercado quer”, diz tolamente uma delas. Ora, o mercado quer o que sempre quis: mão de obra adestrada. E é sintomático que a Globo já tenha vindo a público para tranquilizar os transeuntes – vai continuar procurando nos cursos de jornalismo os profissionais de que precisa. Naturalmente – é ela quem diz em outras palavras – com a possibilidade aberta agora de contratar formados em outras áreas  e que tenham competência para o jornalismo. 
Em meio a tudo isso, um conjunto de reflexões me parece ter marcado presença nas listas pela qualidade dos argumentos que apresentam, favoráveis e contrários à decisão do STF: trata-se do curto debate ocorrido a partir de um post de Ivana Bentes (UFRJ), seguido de duas outras mensagens – uma de Arlindo Machado (ECA/USP e PUC-SP), outra de Marcos Palácios (UFBA). Aponto esse material como um apelo à reflexão. Leia aqui.

Diploma: estudantes indicam o caminho

O dia de ontem e a madrugada de hoje foram momentos de extraordinária reflexão de todos os que estão envolvidos com o ensino do Jornalismo. O que me chamou a atenção, no entanto, não foram as vozes autorizadas da academia nem as propostas precipitadas de campanhas (algumas até com slogans prontos). O que me chamou a atenção nas diversas comunidades de que participo foi a maturidade manifestada pelos estudantes. Poucas foram aquelas despeitadas e rancorosas do tipo “vou trancar a matrícula” ou “vou fazer outro curso porque meu diploma não vale nada”. O que ocorreu foi uma verdadeira guerrilha de cobrança dos cursos, uma saudável expectativa de que, com a decisão do STF, as faculdades de Jornalismo encarem com seriedade e compromisso a responsabilidade que têm com seus alunos.

Eis aí um bom indicativo para a comissão que vai propor novas diretrizes curriculares para os cursos: afastar qualquer ilusão de que o perfil da formação “para o mercado” pode resolver o impasse surgido agora. O que os currículos precisam é a possibilidade de oferecer aos alunos perspectivas de rigorosa e densa formação intelectual ao lado da prática experimental que rompa o círculo vicioso do mimetismo que se estabeleceu com a mídia hegemônica.

Se o diploma não é mais exigido, o jornalismo continuará a exigir formação de qualidade. Penso que essa iniciativa deve ser recuperada pelos cursos específicos desde que permitam aos que os procuram a construção de horizontes avançados para a inovação conceitual e para a inovacão aplicada. A decisão tomada ontem pelo STF abre a discussão em dois sentidos: um é o dos efeitos que ela terá sobre a acomodada reserva de mercado que construiu posições imobilistas; outro é o do a inquietação sobre os desafios que a profissão passa a viver a partir de agora. Torço para que a comunidade universitária se preocupe com este último aspecto e deixe de lado, de uma vez por todas, o primeiro.

Leia as ponderações do Prof. Rogério Christofoletti, da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo, e conheça também as reflexões do jornalista Pedro Aguiar divulgadas na lista do Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo.

E mais: André Mazini e Leandro Fortes também escrevem sobre as consequências da decisão do STF.

Ensino de jornalismo: reflexão e experimentação

Terminei meu curso de Teoria de Jornalismo deste semestre com a análise de um texto de Alain Accardo publicado no Le Monde em 2000. O artigo discute duas ordens de condicionamento pelas quais os profissionais de imprensa passam no desenvolvimento de suas atividades: de um lado, as que são decorrentes dos veículos nos quais operam, em especial orientações de natureza editorial relativas às matérias de maior sensibilidade política; de outro, as que são conseqüência das demandas culturais do próprio público no qual os veículos encontram seu nicho de credibilidade e de mercado. Para Accardo, os jornalistas “não estão maquiavelicamente preocupados em manipular o público para aumentar o lucro dos acionistas das empresas em que trabalham”, mas vivem uma atuação que também através de uma série de condicionamentos quase imperceptíveis nem os deixa suspeitar que os fundamentos de sua profissão podem estar em xeque. O debate em torno do assunto, como era esperado, tomou direções diversas e penso mesmo que não chegamos a amarrar – e isso nem seria possível – qualquer conclusão categórica em torno dele.

O que me chamou a atenção, no entanto, foi a reflexão dos alunos sobre essa dinâmica que rejeita uma explicação simplista sobre o ofício que estão em vias de exercer. Foram inúmeros aqueles que, ao mesmo tempo em que se mostravam preocupados com os desafios que os espera, manifestavam uma firme determinação em aprofundar sua reflexão ao lado de um forte aprimoramento de suas habilidades técnicas. Em determinado momento, as discussões caminharam para as relações entre o curso e o chamado “mercado”. A dúvida é razoável: o que nos prepara melhor, perguntam, o aprendizado operacional ou o aprofundamento de natureza téorico-conceitual que nos permite compreender os dilemas da profissão?

Ponderei com os estudantes em torno do compromisso que a Universidade tem com dois pilares que justificam sua existência: a reflexão e a experimentação. Ela não estará apta a dar conta deles se imaginar que seu espaço é o da reprodução mimética das práticas empresariais e mercantis. Isso a levaria, como o demonstram inúmeros exemplos brasileiros, a se tornar um espaço de adestramento e de reiteração das questões apresentadas no texto de Accardo, inviabilizando a formação de profissionais que superem ou entendam as determinações que atuam sobre seu trabalho. Estou convencido de que só uma sólida formação teórica e o permanente exercício da inovação experimental é que asseguram a formação do bom jornalista.

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