Literatura é desafio para o jornalismo cultural

Acabo de encerrar a 1a. aula do módulo sobre Jornalismo Cultural do pós da Unimep. Uma boa discussão com os alunos, tal como ocorreu, me fez refletir ainda mais sobre o verdadeiro desafio que a Literatura representa para o gênero, desde que ele não seja entendido como um espaço do jornalismo reduzido à prestação de serviços e sempre que os editores dos suplementos, cadernos, seções etc não queiram reduzir as matérias a uma coletânea produzida por especialistas. Nessa hipótese, o profissional está diante de um complexo de possibilidades para o qual, segundo entendo, só há uma saída: um mergulho profundo na narrativa literária com os olhos postos na cultura.

É sobre isso que Mário Vargas Llosa fala na apresentação do livro A cultura do romance recém-lançado pela Cosacnaify: a literatura “é um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres vivos se reconhecem e dialogam”. Para Llosa, essa partilha permitida pela arte produz um “conhecimento totalizador” que remete à essência dos processos sociais e, ainda segundo ele, só o romance é que tem condições de fazer isso.

Não é o caso aqui de discutir as teses do escritor peruano, mas essa dimensão da literatura parece inquestionável e põe em cheque sistematicamente o jornalista que trabalha com a cultura, já que a ele compete não propriamente o estudo do estilo, das estruturas linguísticas de uma obra, mas a atenção para o universo dos conflitos humanos que produz aquele território comum de entendimento, um mesmo mapa de significações através do qual o jornalismo cultural se transforma num exercício de reflexão e de esclarecimento.

Digo isso porque em diversas ocasiões, as discussões em torno do gênero têm sido permeadas pela visão invariavelmente conclusiva de que tudo se resume às pressões econômicas desencadeadas pelo mercado dos bens simbólicos sobre os veículos. Sem descartar a hipótese de que tais pressões realmente ocorram, pondero sobre um dos mecanismos de resistência a elas: a qualificação intelectual do profissional da imprensa. No caso da Literatura, isso não é possível sem o conhecimento denso do universo ético-político em que ela se manifesta, mais do que seus parâmetros estéticos e estruturais.

Literatura e cinema


Muito bom o dossiê da Cult sobre a literatura norte-americana publicado no número 135 da revista. Entre os vários artigos, me chama a atenção o de Mauro Rosso sobre a eterna discussão motivada pela pergunta que dá título ao texto: “o filme é melhor que o livro?”. A polêmica, ainda que pareça bizantina, está assentada em duas ou três perspectivas de origens diferentes, todas importantes para entender a dimensão do problema.

A primeira, que, neste caso, além de primeira é primordial, diz respeito a uma longa tradição, nos Estados Unidos em especial, de transposição de obras literárias para o formato do filme, fenômeno do qual resultaram evidências bastante concretas: o cenário da ficção literária, que é multitemático e consistente em termos culturais e de mercado, tornou-se celeiro de diversos filmes (alguns deles clássicos, apontados por Rosso), invariavelmente pelas mesmas razões: a pertinência da abordagem de temas dada pela sensibilidade ou pelo oportunismo dos autores como substância que justificou a adaptação da obra. A receita do êxito de um livro não garantiu o sucesso da bilheteria, nem sempre; mas o caminho trilhado pelos adaptadores deixou a marca de uma quase hibridação entre os dois gêneros.

A outra perspectiva que alimenta a discussão é motivada pela própria reação do público e pelo efeito que tem sobre os estudos que o debate provoca no meio acadêmico. Rosso cita o professor da UCLA, Randal Johnson, para dar conta da questão. Segundo o pesquisador, a exigência de “fidelidade da adaptação cinematográfica à obra literária originária pode resultar em julgamentos superficiais que frequentemente valorizam a obra literária em detrimento da adaptação, sem uma reflexão mais profunda”. Vem dessa concepção mimética o julgamento do público: o filme é bom se conseguiu manter inalterados os elementos formais de um livro. Julgamento injusto, como se vê – a fidelidade estrita à obra literária não é e nunca foi garantia da igual densidade conceitual com que o tema é tratado em sua origem, ao contrário. Certamente por isso é que Stanley Kubrick, lembrado no artigo, afirmava que “livro é livro, filme é filme”.

O último aspecto é o que me parece mais determinante no estudo do problema. A obra literária e o filme nos põem diante de duas linguagens diferentes marcadas pela natureza estruturante que o suporte técnico tem nas possibilidades narrativas que oferecem a uma e a outro. Penso que Rosso não deu a essa questão a profundidade que ela merece, embora seu artigo faça referência apropriada a um de seus elementos: a natureza estática da literatura e o caráter dinâmico do cinema, dimensões responsáveis por processos diferentes de produção de sentidos pelo público. Eu acrescentaria à discussão um outro elemento: o da menor abertura que a mediação tecnológica da obra cinematográfica oferece ao espectador em contraposição à maior abertura que a obra literária permite ao leitor.

A polêmica não é nova e já foi posta em debate especialmente por Umberto Eco, mas não é demais lembrar que o conceito de fidelidade esbarra nessa diferença estrutural existente entre os dois gêneros, de onde se deduz que a idéia de transposição literal de um para outro – do livro para o filme – inevitavelmente conduziria a uma inadequação de natureza cognitiva (como de fato conduz quando isso é tentado) que frustraria (e frustra) o público. Quer dizer, o cinema está comprometido com processos narrativos que advém de suas características e não se obriga a contar as histórias no ritmo e nos limites lineares do texto literário; apela para uma instância de percepção do espectador de origem diversa do apelo que é feito pelo livro.

Nada disso, no entanto, é irreconciliável e os roteiristas estão aí nesse papel fundamental que é o de levar em conta essas diferenças conceituais, mas a comparação que não incorpora as dimensões características da literatura e do cinema esbarra na relatividade da resposta objetiva à saudável provocação de Rosso: se o filme é melhor que o livro? Talvez sim, talvez não…

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