O existencial e o político no jornalismo cultural

Penso que um outro conjunto de elementos faz parte de muitas das matérias publicadas nos suplementos e cadernos de cultura. Nas duas últimas postagens sobre o tema fiz uma rápida referência a eles quando afirmei que, além dos componentes de natureza mercadológica e daqueles de perfil estético-conceitual, também os contextos de natureza ético-política aparecem na produção do gênero. Trata-se, neste caso, das referências de contexto existencial e histórico que as pautas do jornalismo cultural cobram do profissional da imprensa, invariavelmente ligadas às dimensões de natureza reflexiva que a produção artística ou acadêmica sempre apresenta.

Exemplifico com a observação empírica que tenho feito sobre os suplementos de cultura dos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, que são os órgãos com os quais tenho trabalhado no projeto de pesquisa que desenvolvo na Umesp. Pois bem: com exceção daquelas matérias de menor dimensão interpretativa e quase sempre voltadas para a “prestação de serviços” (notas, breves comentários, apontamentos de natureza essencialmente informativa), as demais costumeiramente apontam para o conjunto de possibilidades oferecidas pelas “aberturas” analíticas presentes com maior ou menor intensidade na produção cultural. É bastante comum nesses casos – diria mesmo que é inevitável – que o jornalista se debruce sobre o universo de problemas de perfil existencial ou político que as obras que comenta têm em maior ou menor grau, remetendo o leitor para um contexto ampliado da simples referência objetiva ao tema da matéria.

Nesse sentido, um lançamento literário ou uma apresentação dramatúrgica, a estreia de uma produção cinematográfica, uma obra de estrutura acadêmica, operam com duas dimensões igualmente fortes na composição dos textos que tenho analisado: a primeira elas, que chamo aqui de existencial, remete a questões relativas à ontologia do contemporâneo e à diversidade de apelos à sua compreensão ética, entendida aqui como uma esfera de comportamentos que, embora possam se refletir no cotidiano (e identificada nele), apontam para dilemas do ser, da sua subjetividade, da sua inserção no universo dos sentimentos e das relações com o mundo. A segunda, que chamo de política (obviamente referida aqui em sua compreensão transformadora e organizadora), diz respeito à estrutura social, às relações de dominação e ao poder.

Minhas observações sobre o jornalismo cultural, ainda que reconheçam no gênero – como já foi dito – determinações informativas e de puro entretenimento (onde se concretiza a interface com o mercado da cultura), evidenciam processos de produção voltados para essas outras duas lógicas dos bens simbólicos: a dimensão estético-conceitual e a dimensão existencial e política. Acredito que essas conclusões culminam, pelo menos até aqui, a interpretação dos produtos que tenho estudado. A tarefa agora é sistematizá-las, mas é preciso mais que um blog para isso.

Estética e conceito no jornalismo cultural II

Volto ao tema desenvolvido na postagem anterior. Do jornalismo cultural espera-se naturalmente que cumpra sua função de prestador de serviços: é sob esse aspecto que o gênero se encontra com demandas de natureza mercadológica e sobre as quais trabalha com um universo carregado de infomações objetivas e funcionais. As publicações especializadas comprovam isso em todas as suas edições: textos que oferecem ao leitor uma espécie de roteiro em torno do qual ele (o leitor) se situa no panorama das atividades culturais. O gênero, no entanto, dada a sua complexidade sempre crescente, desenvolve-se em outras direções – e as pesquisas mais atuais em torno do tema já conseguiram identificar uma massa elaborações discursivas que se afasta desse primeiro estágio e caminha para um exercício de contextualização das matérias.

Por conta de colaboradores ou por conta de jornalistas especializados nos diversos segmentos da cultura, essa outra abordagem tem nas questões de natureza estético-conceitual um dos núcleos principais de sua elaboração. Sobre essas questões, no entanto, convém desde logo destacar que estão mais presas a um enfoque de perfil analítico, mais propensas ao estilo ensaístico. Invariavelmente, quando o projeto editorial do veículo contempla isso, o volume informativo das matérias cede lugar a um aggiornamento do leitor face ao lugar que o assunto (a obra) ocupa no cenário mais amplo das formulações expressivas, se mais ou menos próxima das propostas de vanguarda, se mais ou menos próxima de questões culturais mais amplas, se emerge como resposta formal para os impasses da arte no mundo contemporâneo. Nesse sentido, a densidade informativa do gênero cede lugar a um cruzamento de possibilidades para as quais jornalistas profissionais especializados ou autores, estes últimos quase sempre de origem acadêmica, oferecem suas interpretações. É em razão dessa constatação que as pesquisas desenvolvidas sobre o tema indicam que o jornalismo cultural é o gênero de maior presença autoral entre todos os outros.

Seria inapropriado nos limites deste post apresentar o elenco de exemplos que comprovam essas características, mas um rápido acompanhamento das edições dos veículos que são considerados referências na área, especialmente impressos, indica uma produção que tem nessa perspectiva estético-conceitual um de seus suportes. O outro suporte é o de natureza ético-política, como dissemos na postagem de 12 de outubro. Volto ao tema ainda uma vez para analisar essa questão.

Publicado em cultura contemporânea, jornalismo cultural, mercado cultural. Comentários desativados

Estética e conceito no jornalismo cultural I

Nos estudos que tenho feito sobre o Jornalismo Cultural uma das hipóteses com as quais trabalho é a de que são dois os elementos fundamentais que estruturam a pauta do gênero: as informações e análises de natureza estético-conceitual e aquelas de natureza ético-política. São dois conjuntos que caminham lado a lado, mas é preciso distinguir a especificidade de cada um deles para que seja possível perceber onde reside o núcleo noticioso daquilo que é publicado em suplementos, revistas, seções e cadernos onde a cultura está presente no jornalismo.

No primeiro caso que me ocupa aqui – os elementos estético-conceituais -, o que chama a atenção é o conjunto de proposições expressivas que marcam o objeto das matérias, isto é, as informações que dão conta das relações entre uma determinada manifestação cultural e a realidade, sempre a partir de uma proposta narrativa que emerge das questões colocadas na cultura contemporânea. Obras da literatura, do cinema, do teatro, da música, mesmo quando são reedições, constituem-se em fatos noticiosos do jornalismo cultural não propriamente por sua emergência enquanto fatos, mas por uma abrangência tradutora de posições a respeito de problemas relativos à sociedade em geral e ao indivíduo em particular. Quando isso ocorre, o jornalista se vê na contingência de trabalhar em torno desse sentido mais amplo que a percepção estética permite, debruçando-se sobre o significado social daquilo que está sendo analisado.

Essa breve reflexão vem a propósito da apresentação que José Luiz Braga fez do livro de Sérgio Gadini (Interesses cruzados: a produção da cultura no jornalismo brasileiro). Para Braga, no jornalismo cultural “o texto jornalístico [não] pode se pretender externo ao ‘acontecimento’. Ele não só relata, mas interpreta, comenta, é estruturalmente solicitado a se manifestar em termos de valor”. E acrescenta: “a ‘validade’ (noticiabilidade?) do cultural é menos objetiva em si, mais dependente de valores simbólicos às vezes impoderáveis, em todo caso, menos previsiveis”. Segundo entendo, é nessa característica mediata do gênero e em seu déficit de objetividade que se encontra um dos núcleos específicos do jornalismo cultural, de onde ele retira os parâmetros de identidade com os quais aborda o assunto de sua pauta. A conclusão não me parece tão óbvia, mas é possível especular então com a hipótese de que parte de tais parâmetros estão localizados nas dimensões estéticas e conceituais do fato cultural.

Naturalmente, uma visão mais econômica do gênero leva sempre à constatação de que os fatores determinantes dos fatos culturais explicam-se antes por sua inserção no mercado de bens simbólicos, mas é preciso ponderar sobre essa dupla dimensão da cultura: a da sua racionalidade mercantil e a da sua imanência e interioridade criadora. Esta última é que me parece se constituir, como disse acima, num dos elementos que estruturam o jornalismo cultural. Vamos voltar ao tema na próxima postagem.

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