Bug no Congresso

Ando com minha atenção voltada para dois ou três problemas que ocupam as manchetes principais dos grandes jornais. De todos eles, o que mais me incomoda é a possibilidade de que a reforma da lei eleitoral acabe impondo restrições ao uso da internet nas campanhas dos candidatos. Tento entender a lógica do legislador quando leio que essas restrições atingiriam não propriamente os sites noticiosos ou as páginas on-line dos principais veículos de comunicação, mas os blogs. Isso mesmo: os blogs.

Minha suposição é a de que a autoria da proposta – que tem fortes possibilidades de aprovação – acredita que o movimento dos sites produzidos por entidades, associações, movimentos e cidadãos independentes, sem compromissos com os grandes grupos de mídia, tenham hoje uma presença tão forte na vida política brasileira que seriam capazes de influenciar, de maneira decisiva, os resultados eleitorais. Ora, se é assim, uma restrição dessas passaria a confrontar a própria Constituição já que privaria um setor importante da opinião pública do seu direito à liberdade de expressão. É evidente, no entanto, que não se trata disso. Há uma extensa faixa da população brasileira que nem de longe é atingida pelas manifestações da rede, o que tornaria a proibição absolutamente inócua. Se for isso, aí é que a restrição não se justificaria de jeito nenhum.

Pois é justamente essa dificuldade em localizar as razões da proibição que me chama a atenção. Penso que estamos diante de uma questão mais profunda que a simples tentativa de evitar supostos “desmandos” ou “abusos” de campanha cometidos na rede: a ignorância que uma parcela significativa dos parlamentares brasileiros mantém em relação aos processos que se desenvolvem na sociedade brasileira. A esta altura da expansão das redes virtuais que existem no interior dos centros urbanos, quase que universalmente espalhadas por quase todas as faixas etárias, todas as classes e todos os gêneros, ignorar que restrições à internet possam simplesmente ser inviabilizadas é negar a realidade. E o que é pior, negar a realidade com fundamento numa aversão a um dos equipamentos mais dinâmicos da modernidade.

A sensação que tenho ao ler as notícias sobre a proposta, em especial os argumentos que a justificam, é a de que os grupos parlamentares que a apoiam se constituem num reduto do que há de mais atrasado na representação politica brasileira, uma espécie de trincheira das práticas pré-históricas dos processos eleitorais. Ou é isso ou estamos diante de uma camuflagem que quer preservar a influência dos grandes veículos de comunicação nas escolhas dos eleitores, fenômeno que a internet tende a relativizar. Dizem os setores de centro-esquerda que a proposta não passa. Até lá podemos verificar qual é a tendência dos que visitam esta página: leia o artigo de Juliana Lima, do blog Jornalismo nas Américas, e opine na enquete ao lado.

Resultado da enquete: 60% dos que opinaram são contrários a qualquer tipo de restrição à propaganda política na internet; 30% são favoráveis apenas a restrições que atinjam a propaganda de candidatos; 10% concordam com restrições a todos os conteúdos da campanha eleitoral para as eleições de 2010.

Nova economia e comunicação, quase 10 anos depois

Terminei o trabalho que pretendo apresentar no Congresso de Produção Científica da Metodista. O tema do paper gira em torno de um assunto que ocupou parte das minhas leituras nos últimos anos: passado o deslumbramento provocado pelo impacto das novas tecnologias na economia global, o que restou das promessas de expansão universal da riqueza e da criação de uma nova cultura? No trabalho, tento responder essas questões recorrendo à verdadeira mitologia que a mídia criou em cima de um conceito que, segundo entendo, depois de quase 10 anos, na prática reforçou a natureza concentracionária do capitalismo com efeitos perversos para todas as sociedades. No âmbito da cultura, a consagração de uma dicotomia: o fosso existente hoje entre a funcionalidade e a disfuncionalidade, categorias e normas que atingem todas as áreas da atividade humana.

Minha explicação para o paradoxo que se criou no final dos anos 90, que foi percebido por poucos estudos acadêmicos – invariavelmente por aqueles apoiados em construções teórico-metodológicas de extração radical – é que faltou o conhecimento sobre os processos históricos e sobre o dinamismo das lutas sociais. Vistas as coisas com a perspectiva do presente e tendo no nosso cotidiano as marcas do rescaldo da crise geral que atingiu a economia global no final do ano passado, algumas conclusões são possíveis, pelo menos alguns indicativos, o mais importante deles sobre as práticas discursivas dos profissionais da comunicação: podem ter percebido que devem colocar sua compreensão sobre o que ocorre no mundo a serviço da recuperação do caráter finalista da economia e, com isso, torná-la efetivamente global – não meramente no sentido geográfico ou físico do termo, mas no seu sentido universal, socialmente universal.

Pretendo discutir essas questões no Congresso de outubro.

Diversidade e riqueza no twitter

Neste momento, tenho exatos 346 seguidores no twitter, a maioria formada por alunos e alunas da Metodista e da Puc. No início, confesso que tinha muitas restrições a uma certa precariedade discursiva que observava nas postagens de todos e não fosse pelas ponderações de uma amiga jornalista que insistia nas potecialidades desse tipo de rede, acho que teria deixado a coisa pra lá.

Minha percepção sobre isso mudou bastante. Primeiro, em razão das notícias dando conta das guerrilhas de comunicação que o twitter tem permitido. No Brasil e no exterior, já são diversos os casos de amplificação de informações mobilizadoras que encontram na plataforma das micropostagens um instrumento tão dinâmico quanto democrático. Os exemplos são muitos, mas me parece que o episódio recente do acompanhamento da votação do STF sobre o fim da exigência de diploma para jornalistas é sintomático: nem bem os juízes acabavam de proferir seus votos e a notícia já estava na rede. No final da sessão, quando saiu a sentença, já havia do lado de fora do Supremo, por todo o país, um intenso movimento em torno do assunto. Não discuto o acerto desta ou daquela posição, mas o fato concreto da disseminação da notícia e da opinião; isso, sim, é muito positivo.

O segundo motivo que me deixa olhar o twitter com outra perspectiva está mesmo no conteúdo das postagens do cotidiano, essas que levam a sério o propósito do twitter e de outras redes (“o que vc está fazendo agora”). Descemos aí a uma hiperindividualidade reveladora de quase tudo: tem gente que reclama do frio, da solidão, da fome, do trabalho, fala de sexo, diz palavrão, dá conselhos – um mural meio radiográfico de ansiedades, de expectativas que abragem uma disposição de escancaramento que só mesmo os “meus diários” das meninas do passado é que permitiam – se é que permitiam. Pois é aí que eu quero chegar.

Meus 346 seguidores fazem tudo isso – e haja paciência para ler tanta “angústia existencial” – mas registram um outro conjunto de experiências – vou chamar de culturais – que os envolvem: bandas que ouvem, filmes que assistem, livros que leem, notícias sobre fatos variados da vida brasileira que comentam; um universo de percepções de uma variedade tão grande quanto a sua complexidade. E não é que o @qualquercoisa, que eu apenas li lamentando sobre uma ficada que não deu em nada, mostra ser possuidor de um refinado gosto musical? E a @fulana, depois de mal-dizer um fim de semana trancada em casa, me sai com um comentário preciso e denso sobre um filme?

Sei perfeitamente que isso tudo pode ser passageiro e que há em meio aos frequentadores do twitter os malandros de sempre: empresas, messiânicos, oportunistas do esporte e da política. Mas seria muita ingenuidade imaginar que a rede é seletiva e que pode ser condenada por conta desse tipo de frequência – ela é absolutamente incontrolável. O que eu quero dizer é que esse instantâneo caótico, desordenado e anárquico das micropostagens no twitter tem me ensinado muito sobre o universo das pulsões intelectuais dos meus seguidores e tenho sido surpreendido não só com a sua diversidade, mas também com a sua riqueza.

O twitter chega à Tv

Essa aparente ingenuidade existencial que caracteriza as micropostagens nas páginas do twitter parece destinada a se tornar um processo interativo de largo alcance. Pelo menos é o que deixa entrever a informação dada por um dos fundadores da plataforma, Biz Stone, segundo a qual a empresa está prestes a fechar acordos com redes de televisão dos Estados Unidos para permitir a participação instantânea dos usuários do twitter na sua programação.

Na verdade, a iniciativa apenas retoma experiências que foram feitas durante a última campanha presidencial norte-americana quando programas de debate entre os principais candidatos estiveram abertos para a intervenção direta dos microblogueiros, condicionando o comportamento público de Obana e McCain e constrangendo-os a uma saravaida de perguntas que para muitos analistas teve peso fundamental nas escolhas dos eleitores.

Não se trata de uma situação inteiramente nova, já que a interatividade permitida pelas redes sociais tem sido peça importante nas campanhas políticas. O que há de diferente com a chegada do twitter é a sua instantaneidade quase que absoluta, como se pode ver nos diversos vídeos disponíveis no site do programa Hack The Debate.

Para os entusiastas da plataforma, seus milhões de usuários (nos Estados Unidos os acessos ao twitter chegaram em abril a 17 milhões, com um crescimento superior a 80% em relação a março) são a garantia de que a proposta de integração com a Tv poderia democratizar o veículo, isto é, acabar de vez com a programação hierárquica e fechada da televisão.

Evidentemente, tudo depende do conceito que se tem de “democratização”, mas é possível prever que os dias de inocência dos twitteiros (não tão inocentes assim se levarmos em conta o interesse comercial e simbólico que os microblogs já despertaram por aqui) estão próximos do fim. Leia outras fontes.

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