Diversidade e riqueza no twitter

Neste momento, tenho exatos 346 seguidores no twitter, a maioria formada por alunos e alunas da Metodista e da Puc. No início, confesso que tinha muitas restrições a uma certa precariedade discursiva que observava nas postagens de todos e não fosse pelas ponderações de uma amiga jornalista que insistia nas potecialidades desse tipo de rede, acho que teria deixado a coisa pra lá.

Minha percepção sobre isso mudou bastante. Primeiro, em razão das notícias dando conta das guerrilhas de comunicação que o twitter tem permitido. No Brasil e no exterior, já são diversos os casos de amplificação de informações mobilizadoras que encontram na plataforma das micropostagens um instrumento tão dinâmico quanto democrático. Os exemplos são muitos, mas me parece que o episódio recente do acompanhamento da votação do STF sobre o fim da exigência de diploma para jornalistas é sintomático: nem bem os juízes acabavam de proferir seus votos e a notícia já estava na rede. No final da sessão, quando saiu a sentença, já havia do lado de fora do Supremo, por todo o país, um intenso movimento em torno do assunto. Não discuto o acerto desta ou daquela posição, mas o fato concreto da disseminação da notícia e da opinião; isso, sim, é muito positivo.

O segundo motivo que me deixa olhar o twitter com outra perspectiva está mesmo no conteúdo das postagens do cotidiano, essas que levam a sério o propósito do twitter e de outras redes (“o que vc está fazendo agora”). Descemos aí a uma hiperindividualidade reveladora de quase tudo: tem gente que reclama do frio, da solidão, da fome, do trabalho, fala de sexo, diz palavrão, dá conselhos – um mural meio radiográfico de ansiedades, de expectativas que abragem uma disposição de escancaramento que só mesmo os “meus diários” das meninas do passado é que permitiam – se é que permitiam. Pois é aí que eu quero chegar.

Meus 346 seguidores fazem tudo isso – e haja paciência para ler tanta “angústia existencial” – mas registram um outro conjunto de experiências – vou chamar de culturais – que os envolvem: bandas que ouvem, filmes que assistem, livros que leem, notícias sobre fatos variados da vida brasileira que comentam; um universo de percepções de uma variedade tão grande quanto a sua complexidade. E não é que o @qualquercoisa, que eu apenas li lamentando sobre uma ficada que não deu em nada, mostra ser possuidor de um refinado gosto musical? E a @fulana, depois de mal-dizer um fim de semana trancada em casa, me sai com um comentário preciso e denso sobre um filme?

Sei perfeitamente que isso tudo pode ser passageiro e que há em meio aos frequentadores do twitter os malandros de sempre: empresas, messiânicos, oportunistas do esporte e da política. Mas seria muita ingenuidade imaginar que a rede é seletiva e que pode ser condenada por conta desse tipo de frequência – ela é absolutamente incontrolável. O que eu quero dizer é que esse instantâneo caótico, desordenado e anárquico das micropostagens no twitter tem me ensinado muito sobre o universo das pulsões intelectuais dos meus seguidores e tenho sido surpreendido não só com a sua diversidade, mas também com a sua riqueza.

O twitter chega à Tv

Essa aparente ingenuidade existencial que caracteriza as micropostagens nas páginas do twitter parece destinada a se tornar um processo interativo de largo alcance. Pelo menos é o que deixa entrever a informação dada por um dos fundadores da plataforma, Biz Stone, segundo a qual a empresa está prestes a fechar acordos com redes de televisão dos Estados Unidos para permitir a participação instantânea dos usuários do twitter na sua programação.

Na verdade, a iniciativa apenas retoma experiências que foram feitas durante a última campanha presidencial norte-americana quando programas de debate entre os principais candidatos estiveram abertos para a intervenção direta dos microblogueiros, condicionando o comportamento público de Obana e McCain e constrangendo-os a uma saravaida de perguntas que para muitos analistas teve peso fundamental nas escolhas dos eleitores.

Não se trata de uma situação inteiramente nova, já que a interatividade permitida pelas redes sociais tem sido peça importante nas campanhas políticas. O que há de diferente com a chegada do twitter é a sua instantaneidade quase que absoluta, como se pode ver nos diversos vídeos disponíveis no site do programa Hack The Debate.

Para os entusiastas da plataforma, seus milhões de usuários (nos Estados Unidos os acessos ao twitter chegaram em abril a 17 milhões, com um crescimento superior a 80% em relação a março) são a garantia de que a proposta de integração com a Tv poderia democratizar o veículo, isto é, acabar de vez com a programação hierárquica e fechada da televisão.

Evidentemente, tudo depende do conceito que se tem de “democratização”, mas é possível prever que os dias de inocência dos twitteiros (não tão inocentes assim se levarmos em conta o interesse comercial e simbólico que os microblogs já despertaram por aqui) estão próximos do fim. Leia outras fontes.

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